por
João Pedro Oliveira
Se fosse vivo, John Coltrane teria 80 anos, mais do dobro dos que conseguiu viver. É uma data redonda e "um bom pretexto para evocar a sua memória", considera Rui Neves, programador do Jazz em Agosto, festival que hoje arranca para a sua 23.ª edição com um cartaz a render homenagem ao saxofonista. "Coltrane faria 80 anos, a Fundação Calouste Gulbenkian faz 50. É uma boa combinação de razões para celebrar." A isto se soma uma mão cheia de estreias em palcos nacionais, mais uma estreia mundial absoluta e uma forte aposta em músicos norte-americanos, contrariando em certa medida a regra das maiorias europeias que povoam a tradição do festival.
O tributo a Coltrane concentra-se nos primeiros dias de um programa que se estende até dia 12. Começa esta noite (21.30), com o concerto inaugural pelo Rova Orkestrova Electric Ascension, projecto nascido em 1995 sob liderança do saxofonista Larry Ochs, precisamente para assinalar os 30 anos de Ascension, obra de referência no repertório de Coltrane. "É a oportunidade de ouvir uma versão transfigurada da peça de Coltrane, uma leitura moderna, electrónica, que mostra bem como o seu legado musical está bem vivo", explica Rui Neves , lembrando que esta é uma entre as várias estreias que o Jazz em Agosto traz este ano aos palcos nacionais. "É uma tradição do festival, esta de fazer novas propostas e apresentar músicos ou projectos em estreia", aponta o programador, pedindo atenção para o arrojo do seu cartaz: excepção feita ao concerto a solo do saxofonista Evan Parker, todos os espectáculos têm algo de inédito em solo nacional, seja porque os músicos nunca por cá tocaram, seja porque se apresentam com projectos em estreia.
E é precisamente com Evan Parker que prossegue a homenagem a Coltrane. Amanhã, o saxofonista apresenta-se a solo (21.30) no Anfiteatro ao Ar Livre. No sábado, pelas 15.30, regressa para uma palestra sobre Coltrane. Segue-se uma alocução do crítico americano Larry Appelbaum sobre a descoberta da aclamada gravação inédita de Coltrane e Thelonious Monk no Carnegie Hall em 1957 (editada pela Blue Note em 2005) e ainda um filme de 16 milímetros datado de 1959, cedido ao festival pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, com Coltrane, Miles Davis e Gil Evans.
Americanos e inéditos
Sábado é também dia para a tal estreia absoluta, com um trio feito de influentes figuras do jazz que nunca antes se reuniram: o saxofonista norte-americano Larry Ochs, o baixista inglês Fred Frith e o percussionista francês Lê Quam Ninh - que no dia seguinte dá um recital de percussão.
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