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Drácula passeando na brisa de um centro comercial

por

Miguel-Pedro Quadrio  

De Mark Ravenhill (n. 1966), Carlos Afonso Pereira já encenara Fausto Morreu, em Dezembro do ano passado. Esse texto, de 1997, seguiu-se a Shopping and Fucking, estreado em 1996. Ambos marcam a afirmação pública do dramaturgo e, embora tematicamente se inspirem na violência despudorada do in-yer-face theatre, indiciam uma sofisticação de escrita que os ressalvam da demagogia panfletária do novo teatro britânico dos anos 90 do século XX.

Tal como na inteligente leitura de Fausto Morreu, Carlos A. Pereira volta a apostar aqui numa linha justa de contenção quase geométrica, que torna particularmente visível a perversidade barroca dum mundo onde tudo e todos têm o seu preço. Pois, mais do que uma hipotética moralização, o encenador apercebe-se de que, neste universo de "compras & sexo", é a posse da linguagem que distingue dominados e dominadores.

Esta abordagem dinâmica leva Carlos A. Pereira a quase rasurar a intriga, tentando mimar a imprevisibilidade e a insegurança do destino humano nas sociedades democráticas e capitalistas. Plasticamente, a ideia torna-se visível na caracterização igualitária e andrógina dos intérpretes e no excelente aproveitamento "ambulatório" que se faz do espaço burguês da Casa d'Os Dias da Água.

Os rostos maquilhados, figurinos iguais de corte moderno e urbano (calças de ganga azuis, ténis e camisas brancas, de traço feminino), a dramatização da relação observador/manequim de montra, as máscaras, a distribuição aleatória das falas através dum baralhar e voltar a dar de cartões de crédito, o minimalismo dum espaço cénico que marca apenas um percurso sem fim (em tons impressivos de prata, negro e vermelho) são estratégias que, liquidando a "história" e as personagens, tornam estes seres em "vozes" anónimas e incandescentes de um jogo tão fútil quanto aterrador (certamente mais próximo da perversidade das Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, que do desencantado Anton Tchékhov, explicitamente citado por Ravenhill).

Além de ser um muitíssimo criativo dramaturgista e encenador, Carlos Afonso Pereira confirma neste espectáculo a sua segurança na direcção de actores. Dum elenco que junta profissionais com experiências distintas - Anabela Brígida, Carlos Vieira, Miguel Moreira e Romeu Costa -, o também intérprete obtém resultados duma subtileza, rigor e contenção notáveis (destaquem--se Miguel Moreira e Romeu Costa em dois papéis de uma fragilidade tocante).


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