por
Vicente Jorge Silva
Jornalista
O Governo português prescindiu de tomar posição sobre a situação no Médio Oriente, num reconhecimento da patética insignificância da nossa política externa. Em contrapartida, já existe um manifesto de cidadãos. Eduardo Lourenço, Rui Vilar, Eduardo Prado Coelho, Luís Miguel Cintra, José Mattoso, Maria Velho da Costa, o bispo Januário Torgal Ferreira e frei Bento Domingues, entre outras personalidades estimáveis, subscreveram, esta semana, um documento apelando à "cessação imediata das agressões, bombardeamentos de terror, incursões, destruições e bloqueio da Faixa de Gaza e Líbano por parte de Israel". O texto foi divulgado pelo Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente e recolheu também as assinaturas de dirigentes do PCP e do Bloco de Esquerda.
Como presumível preço de um consenso entre os subscritores, o texto reclama também a "cessação do lançamento de mísseis sobre o território de Israel e a libertação dos três militares israelitas capturados", além de fazer referência a "apreciações diferenciadas das responsabilidades dos vários intervenientes na presente crise na região". Mas apesar do expediente diplomático dessas "apreciações diferenciadas", o manifesto não consegue disfarçar os propósitos dos seus inspiradores políticos, nomeadamente quando diz que a ofensiva israelita só teria sido possível "em estreito conluio com os EUA" e que, em vez de visar a libertação dos militares sequestrados pelo Hamas e pelo Hezbollah, pretenderia "derrubar organizações políticas e dirigentes democraticamente eleitos, instalar uma correlação de forças neocolonial na região e desestabilizar a Síria e o Irão".
Se "estreito conluio" e "correlação de forças neocolonial" são já clichés que denunciam uma origem suspeita, "desestabilizar a Síria e o Irão" mostra o gato com o rabo de fora num texto que, à partida, teria como finalidade denunciar uma tragédia humanitária e uma barbaridade bélica. Ora, como podem personalidades como Eduardo Lourenço, Prado Coelho, José Mattoso, Torgal Ferreira, Bento Domingues ou Rui Vilar (apesar das relações da Gulbenkian com o mundo muçulmano) deixar-se instrumentalizar de forma tão caricatural?
Estarão eles porventura preocupados com a estabilidade de regimes tão sinistros como a ditadura síria e a teocracia iraniana em vias de nuclearização? Admitirão desempenhar o papel de "idiotas úteis" numa causa supostamente boa, prestando-se a ser manipulados por um militante sectarismo ideológico? Para denunciar a barbárie israelita no Líbano é preciso ser--se condescendente com a Síria, o Irão e o fanatismo do Hamas ou do Hezbollah, que visam declaradamente o extermínio de Israel? E o facto de Israel e os Estados Unidos serem também co-responsáveis pelo desenvolvimento do fundamentalismo - como efectivamente são - justificará que se manifeste preocupação com a estabilidade de regimes que estão na retaguarda do terrorismo islâmico?
Quando os intelectuais deveriam assumir a voz da sensatez, do discernimento e da razão face às paixões cegas do maniqueísmo, assiste-se à partidarização mais primária das posições de um lado e do outro. É também por isso que num blogue, "daliteratura", citado pelo DN e pelo Público, Eduardo Pitta atribui a um anti-semitismo que se perde na "noite dos tempos" qualquer veleidade crítica ao comportamento político e militar de Israel. Para Pitta, constatar essa coisa tão óbvia a um espírito medianamente equilibrado que é a "desproporcionalidade" da guerra desencadeada por Israel contra o Líbano "não deixa de ser uma infantilidade" e insistir "nessa tecla é uma forma naïf de dizer o indizível"! A catástrofe humanitária no Líbano e o massacre indiscriminado de vidas inocentes seriam, por isso, apenas um reflexo imaginário do mais odioso anti-semitismo. A Israel assistiriam, assim, todos os direitos, incluindo o de uma implacável desumanidade, sob pena de qualquer objecção ser tomada como uma manifestação de ódio secular ao povo judeu. Ao que chegámos, Santo Deus!
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