por
Fernanda Câncio
Às vezes, parece que já ninguém sabe o que é o jornalismo. Ou, o que é o mesmo, para que serve.
"Um jornal serve para servir", concluía o épico texto de um jornalista brasileiro que o então (2004) director interino do DN, José Manuel Barroso, afixou na redacção. Estava lá tudo o que é suposto um jornal ser e fazer. Ser verdadeiro - o que não significa dizer sempre a verdade, mas tentar fazê-lo. Fazer pensar - o que não significa pensar melhor e mais fundo, mas não desistir de o tentar.
Ser jornalista é, antes de mais, pensar. Tentar perceber, encontrar pontes, pontos de ancoragem, entre o que surge como objecto e uma perspectiva própria. Filtrar em si aquilo que se noticia ou reporta, verter a voz no que faz.
Há, claro, vários tipos de jornalismo. É o jornalismo de jornal, cuja crise se decreta há décadas, que aqui importa. As pessoas, dizem os estudos de mercado - e as vendas -, cada vez compram menos jornais. É a TV, é a imprensa grátis, é a crise, é a internet, é a iliteracia, é a falta de tempo, é a falta de interesse por outros mundos que não o de cada um, a recusa da complexidade. E os jornais, como alguém que perdeu o amor do ser amado e, no processo, qualquer resquício de auto-estima, submetem-se a sucessivas cirurgias no sentido de se adequarem àquilo que crêem ser o desejo do outro.
A TV dá notícias pela rama, elegendo o sensacionalismo em detrimento da profundidade e da reflexão e apostando tudo na força das imagens? Eis os jornais a diminuir o tamanho dos textos, a segmentá-los em pedacinhos mais deglutíveis, a carregar-se de fotos e infografias como se esse mimetismo não fizesse mais que assumir e apressar a derrota. As pessoas estão cada vez mais ignorantes e lêem cada vez menos? Dêmos-lhes cada vez menos que pensar e menos que ler. Tratemos de liquefazer o produto, como naquelas garrafinhas que a publicidade garante conterem "a quantidade de legumes diária recomendada pelos médicos" e dar-lhe outros sabores, a morango e kiwi. Dulcifiquemos e minimizemos o jornalismo até servir o mundo assim, na dose diária recomendada, sem peles nem caroço, reduzido a slogans. Exactamente como ele não é. Exactamente o tipo de mundo no qual os jornais não fazem falta. Porque a função do jornalismo é ordenar a desordem do mundo para melhor a dar a ver.
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