por
João Miguel Tavares
jmtavares@dn.pt
O Paulinho foi meu colega de turma na década de 80, no ciclo e no liceu de Portalegre. Tinha uma particularidade: era bastante ostensivo na exibição da sua homossexualidade, com trejeitos efeminados e cadernos da escola com fotografias dos Wham e iloveyous dedicados a George Michael. Durante os quatro anos em que estudámos juntos, não deve ter havido dia em que não tenha visto o Paulinho - o diminutivo já o diminuía - ser insultado, gozado, pontapeado, esbofeteado. Nas aulas de ginástica, ele aparecia sempre vestido de fato de treino e no final abalava para casa a pingar, porque não se atrevia a tomar banho no balneário juntamente com os outros rapazes. Nessa selva de dúvidas e hormonas que é a entrada na adolescência, o Paulinho não era uma pessoa. Era um paneleiro, uma bicha que existia para ser espancada. Identidade não tinha - o mundo brutal que o cercava reduzia tudo o que ele era a uma opção sexual.
Tenho-me lembrado muito dele durante o julgamento de Gisberta, que está a decorrer no Porto. A expressão que servia de grito de guerra dos miúdos que, num momento de tédio, a espancaram até à morte - "vamos dar lenha ao Gi" - remete para a mesma recusa de humanidade, para a mesma incapacidade de assimilar a diferença. Dizer, como foi dito por uma "fonte judicial", que "são miúdos" e que aquilo foi apenas "uma brincadeira que correu mal" é um insulto e uma dupla mentira: nem as crianças são um albergue de inocência e puras intenções, nem os adultos têm o direito de virar a cara a tamanha barbaridade. Tudo neste caso está a ser demasiado consensual: o Ministério Público, a defesa, as crianças, alegremente misturados numa comovente concordância. Já em 1978, na Ópera do Malandro, Chico Buarque contava a história de Geni, "rainha das loucas e dos lazarentos": "Joga pedra na Geni/ Joga pedra na Geni/ Ela é feita para apanhar/ Ela é boa de cuspir/ Ela dá para qualquer um/ Maldita Geni." Geni, Paulinho, Gisberta, o mesmo fio une-os numa rede de pre- conceitos. Velha como o mundo e que ninguém parece ter forças para romper.
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