Jaroslaw Kaczynski, que controlava o poder na Polónia através do seu partido (PiS, Direito e Justiça, conservadores católicos), vai enfim assumir o cargo de primeiro-ministro. A decisão surgiu após o chefe do Governo, Kazimiercz Marcinkiewicz, ter apresentado a demissão. Jaroslaw Kaczynski é irmão gémeo do presidente Lech Kaczynski.
O facto de haver dois irmãos gémeos de 57 anos nos dois cargos mais importantes do país não é mera curiosidade, mas traduz uma crise real. Os problemas que levaram à demissão de Marcinkiewicz eram evidentes desde o início de Maio. Na altura, o PiS governava em minoria e fez um acordo de coligação com dois partidos da franja, os populistas da Autodefesa, liderados por Andrezj Lepper, e os ultraconservadores da Liga de Famílias Polacas, comandados por Roman Giertych.
As duas formações são eurocépticas, contrárias às reformas económicas, e, no caso da Liga, existe um discurso antiliberal, anti-semita e de oposição aos direitos dos homossexuais. O pai de Giertych, eurodeputado sem grupo parlamentar, causou escândalo esta semana, num debate no Parlamento Europeu, ao defender no plenário a herança de Franco e de Salazar.
Em Maio, o acordo de coligação levou à saída do ministro dos Negócios dos Estrangeiros, Stefan Meller. No mês seguinte, após um escândalo de alegada colaboração com a antiga polícia política, demitiu-se a ministra das Finanças, Zyta Gilowska (cuja inocência era manifesta).
O outro vencedor das legislativas e que também resulta do movimento Solidariedade, a Plataforma Cívica (liberais, na oposição), lançou ontem duras críticas à concentração do poder nos dois irmãos Kaczynski, cujo currículo inclui a colaboração com o antigo presidente Lech Walesa e seu posterior abandono, no momento apropriado. Os liberais e centristas com origem no Solidariedade estão a coligar-se para desafiar o PiS nas municipais de Novembro. Apesar da sua saída, especula-se que Marcinkiewicz seja o candidato dos gémeos em Varsóvia.Luís Naves
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