por
Fernanda Câncio e David Mandim
Gostava ao menos que eles dissessem o que se passou, porquê aquela reacção. Gostava de os ouvir dizer porquê." Esta amiga de Gisberta Salce Júnior não tem, no entanto, "grande esperança" no julgamento que hoje se inicia no Tribunal de Menores e Família do Porto. Nem no que respeita ao "castigo", já que está ciente de que não há representantes da vítima neste tipo de processo e os menores arriscam, num tipo de processo que visa não a sua penalização mas reinserção e reeducação, um máximo de três anos de internamento em instituições educativas fechadas (sendo que o Ministério Público pede um ano e meio em regime semiaberto), nem quanto à "explicação" do crime, já que o processo vai decorrer à porta fechada.
A explicação é-lhe tanto mais premente quanto esta transexual, que viu Gisberta pela última vez 15 dias antes de lhe saber da morte, assegura que aquando do reconhecimento do corpo e da missa que se seguiu as famílias de dois dos rapazes que vão ser agora julgados se lhe apresentaram, provando, com fotografias, que Gisberta era sua conhecida de longa data. "Mostraram-me fotos até da Gis em casamentos lá da família... Era íntima deles, conhecia os rapazes desde bebés. Fiquei ainda mais chocada." As famílias terão asseverado que os jovens em causa teriam sido "forçados" por outros, mais velhos, a entrar "naquilo". "Diziam que eles não estavam envolvidos, que só faziam parte do grupo... É normal. Quem é que quer acreditar que um filho seu participou naquele horror?"
Família de Gis não vai assistir
Os sentimentos desta amiga da vítima são partilhados pela família de Gisberta, nascida Gisberto Salce Júnior há 46 anos, em São Paulo, Brasil, e partida aos 18 anos para a Europ, onde esperava encontrar um ambiente mais favorável à sua identidade de transgénero. O sobrinho Abimael Salce Júnior, de 32 anos, responde ao DN entre dois jogos da Copa do Mundo num tom pausado, grave. "Nós não vamos conseguir ir aí para Portugal, não temos condição financeira. Mas vamos tentar acompanhar, estamos numa última tentativa com as associações daqui a ver se conseguimos assinalar a nossa presença."
Abimael diz que ainda foram feitos contactos para a constituição de um advogado, mas até agora saíram gorados. Em todo o caso, o julgamento que hoje se inicia e deverá prolongar-se por uma semana não permite, pelas características de que se reveste, que a vítima seja de algum modo representada. Tal só é possível ou em processos criminais - como o que poderia ocorrer contra o único jovem do grupo inicialmente responsabilizado que tem 16 anos e é, portanto, imputável, tendo cumprido mais de dois meses de prisão preventiva e sido libertado por os testemunhos dos outros rapazes indicarem que teve uma "participação diminuta" no crime, estando agora, segundo o MP, o seu caso a aguardar a conclusão do julgamento destes seus companheiros -, ou em processos cíveis, para a demanda de indemnização.
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