por
Mário Bettencourt Resendes
Jornalista
Há meia dúzia de anos, numa atitude compreensível de redenção colectiva, os portugueses deram as mãos por Timor. Estava ali uma oportunidade rara para aplacar a má consciência de descolonizações atribuladas e para ajudar a abrir os caminhos do futuro de um pequeno país martirizado por confrontos violentos.
Faltaram, na altura - já muitos o escreve- ram... -, sentido crítico e o mínimo de realismo que nos diz ser longo o passo que vai do inferno ao paraíso.
Para quem acompanha os acontecimentos à distância, o que se passa hoje em Timor é, no mínimo, fonte de perplexidade. Aceita-se que os pronunciamentos oficiais, nomeadamente do Governo português, sejam prudentes e contidos, tal é o barril de pólvora que se pressente nas notícias que chegam de Timor. E também se percebe que os escassos jornalistas presentes no terreno tenham cuidados redobrados de filtragem e confirmação das múltiplas informações e rumores que diariamente alimentam um combate político pontuado por manifestações violentas.
Para o observador distanciado e desconhecedor da realidade timorense, são inúmeras as perguntas e escassas as respostas credíveis. É uma história de mistérios variados, onde a especulação se cruza com decisões políticas assentes em legitimidades oficiais e pós-revolucionárias, e onde se adivinha uma fortíssima pressão de bastidores com origens externas às autoridades timorenses.
No meio deste imbróglio, qual o verdadeiro papel e intenções do (até agora...) "anjo bom" Xanana Gusmão? O Presidente de Timor tem, de entre os dirigentes do país, um capital ímpar de popularidade e prestígio interno e internacional. E, tanto quanto se percebe, continua a ter o apoio da maioria da população. Nas últimas semanas, obviamente protegido pelas forças australianas, Xanana aparenta conduzir uma política, de prudência extrema e de pequenos passos, que tem vindo a afastar do poder um grupo de dirigentes próximos de Alkatiri, a culminar no próprio chefe do Governo. E, por essa via, afrontou directamente a cúpula da "sua" histórica Fretilin, partido que venceu folgadamente as eleições e que domina a Assembleia Legislativa. Não surpreende, portanto, que surjam agora reivindicações variadas de dissolução do Parlamento e convocação de eleições antecipadas.
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