por
Luciano Amaral
Professor universitário
Oimperador visitou a Europa, e a Europa, como o cão de Pavlov, reagiu com uma previsibilidade entediante. Era mesmo de antecipar: bastaram três semanas para se desvanecer a estranha simpatia europeia para com o maléfico Imperador, criada pela sua mudança de orientação face ao Irão. De tão rotineira, a coreografia chega a espantar. Em Viena, onde o imperador se encontrou com os régulos locais, começou logo por haver a costumeira manifestação, onde pontificaram o keffieh (sabem, é o lenço palestiniano) e a boina do Che, para além dos cartazes habituais: "Bush=Hitler", "Bush Go Home", "Terrorista Mundial n.º 1", "Assassino em Massa" e restantes mimos da ordem. Um pouco mais exótica foi a presença entre os manifestantes de Jörg Haider e de outros políticos da extrema-direita austríaca. Mas, enfim, nada que perturbasse a boa consciência do oprimido povo europeu.
A imprensa também não desiludiu. Foram inúmeros os artigos sobre a "vergonha de Guantánamo", a "vergonha dos direitos humanos" nos EUA, a "vergonha dos voos da CIA" e, em versões mais benevolentes, a "traição aos valores ocidentais" praticada pelos EUA desde a guerra do Iraque. Tudo salpicado com uma ou outra insinuação (que realmente não podia faltar) sobre a "estupidez" do texano tóxico. Um artigo notava, desconsolado, como Bush não tinha vindo cá "pedir desculpa". Desculpa? Porquê? Possivelmente, por tudo. O desconsolo foi também enorme quando Bush afirmou não se importar de fechar Guantánamo, embora antes fosse preciso saber o que fazer com aqueles 500 prisioneiros, que ninguém quer propriamente ver por aí à solta. Muitos destes prisioneiros vivem de resto em pânico pela possibilidade de lá saírem para regressarem aos seus países, onde, em vez dos famosos fatos cor de laranja, facilmente se lhes encontraria um lugar em frente a um pelotão de fuzilamento. Bush não sugeriu, mas devia tê-lo feito: já que é tão grande a preocupação europeia com os prisioneiros de Guantánamo, porque não deixar a Europa tratar do assunto?
Também os responsáveis políticos europeus não se pouparam a mostrar serviço. O pobre do imperador deve ter pensado que se deslocava à Europa para tratar sobretudo do problema iraniano, esse enorme sucesso da diplomacia europeia. Puro engano. Os 25 emitiram as mais diversas declarações sobre a magna questão de Guantánamo e os "nossos" (quer dizer, nossos e da América) "valores comuns". Zurzir em Bush tem a grande vantagem de desviar a atenção de problemas reais da Europa. Como, por exemplo, o caso iraniano. Ou (coisa que também tem que ver com os "nossos valores comuns") os "voos da CIA": é que parece que, afinal, os governos europeus souberam de tudo desde o início. Enquanto se malha em Guantánamo, sempre se faz figura de humanitário, mesmo quando não se cumprem os mesmos padrões exigidos a Bush. Isto, em linguagem da alta política, tem um nome: irresponsabilidade.
Irresponsabilidade é o termo exacto para definir as recentes atitudes europeias face aos EUA. Quando o discurso dos governantes é igual ao dos guevaristas e racistas nas ruas, qualquer coisa não está bem. Não se pode evidentemente dizer que tudo o que os EUA fazem é bem feito. Mas o que fazem tem a vantagem de corresponder a uma tentativa de utilizar os meios apropriados para aplicar uma política. É da moda falar dos "erros" americanos, particularmente no Iraque e no Afeganistão. Como é evidente, terá havido "erros" no sentido em que sempre há erros quando se adopta um determinado curso político. Mais interessante é como, nesta perspectiva, os europeus ou as agências internacionais favoritas dos europeus (em especial a ONU) nunca cometem erros. É óbvio que quando não se faz nada também não se cometem erros. Pelo menos no sentido em que os americanos os cometem. Mas talvez se possa dizer qualquer coisa sobre outro tipo de "erros", nomeadamente os resultantes da inacção e da ineficácia. Vale a pena recordar alguns deles. Desde logo, o fracasso das negociações iranianas, para as quais foi agora necessário, mesmo se contraditoriamente, pedinchar aos "carrascos de Guantánamo" que se associassem. Ou o namoro com o "povo palestiniano", ultimamente entretido em lançar-se numa situação de pré-guerra civil. Sem esquecer a ineficácia da ONU no Ruanda, no Congo, no Darfur ou em Timor. Ou a sua corrupção, como no escândalo do programa "Petróleo por Comida". Para não mencionar outros casos que ocorreram bem dentro da Europa, como a Bósnia ou o Kosovo, onde sistematicamente foi necessário à última da hora chamar os americanos para se encontrar uma solução, por mais imperfeita que fosse.
É este o curriculum da irresponsabilidade europeia e dos seus instrumentos de política externa favoritos. Uma irresponsabilidade própria de quem, precisamente, não se sente responsável por nada, mas vai deixando atrás de si um rasto trágico. Perante isto, compreende-se que haja apenas uma solução: culpar Bush. É fácil e sempre dispensa de se pensar e fazer qualquer coisa.
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