por
Jornalista ana.s.lopes@dn.pt
Ana Sá Lopes
O golo de Pauleta, logo aos quatro minutos, não me soube bem. Como muitos outros portugueses, eu carrego a culpa do colonizador. Sendo o futebol qualquer coisa entre o bailado e o combate, o nosso passado comum induzia a coisa a ser lida à luz do combate (aliás, foi o que se passou há três anos naquele famoso jogo amigável que não chegou ao fim).
Foi por isso que o golo de Pauleta aos quatro minutos parecia, na minha cabeça complexada, trazer anexa a frasezinha do dr. Salazar quando declarou a guerra: "Para Angola rapidamente e em força." Que jogo chato, carregado de fantasmas. Que maçada. Não podíamos escapar à história, não nos podia ter calhado outra equipa?
Que seca.
Depois, aquilo foi como foi. Eu achei que foi bom. A bem dizer, óptimo. Um golo aos quatro minutos não foi, afinal, nenhum princípio de combate. Foi um golo só. Acabou por ser um golo do mais ex-colonialmente correcto que se podia arranjar.
O marcador foi um bom acaso: Pauleta é açoriano e o arquipélago dos Açores foi durante séculos um filho ignorado da desnaturada metrópole imperial. Como os angolanos, também os açorianos queriam a autodeterminação (e conseguiram-na com a autonomia, um grau intermédio com órgãos de governo próprios). Como os angolanos, também os açorianos foram vítimas do império.
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