por
Isabel Lucas
André Carrilho
Para os leitores portugueses o sucesso de um livro pode ser uma questão de tamanho. Contrariando a tendência do que se passa em Inglaterra, França, Itália ou Espanha (um artigo publicado ontem no El País informava que 60 por cento dos leitores espanhóis se renderam ao pequeno formato), em Portugal o livro de bolso teima em não vingar, salvo casos pontais (ver caixa). Porquê? Será preconceito, uma visão do livro como objecto sagrado ou o tamanho dos caracteres, o mau papel, as lombadas que se desfazem ou a distribuição deficiente? Editores e livreiros procuram resposta através de testes mais ou menos intermitentes ao mercado com colecções quase sempre descontinuadas.
A possibilidade de o baixo custo funcionar como incentivo à leitura e permitir prolongar a vida de um livro noutro formato esbarra com dificuldades específicas do mercado. Sem números que a possam suportar (como acontece em Portugal sempre que se fala de livros), a informação sustenta-se na experiência de quem arriscou aquela que aparenta ser uma fórmula de sucesso num país com baixo índice de leitura e economia deprimida: variedade de títulos - de clássicos ou de autores consagrados -, em formato manuseável e a baixo custo. Mera aparência, dirão os responsáveis da Fnac.
Quando se instalou em Portugal, a cadeia francesa quis aplicar a experiência da casa-mãe e, sem nenhum estudo de mercado, lançou em parceria - primeiro com a Dom Quixote e mais tarde com a Asa - uma colecção de livros de bolso com o selo Fnac. "Na Europa, um livro sai em capa dura e pouco depois está em bolso. O nosso director-geral, então, não percebia porque é que isso não acontecia em Portugal. Quis fazer uma experiência. Os resultados não foram os esperados." Lúcia Felizardo, gestora de produto da Fnac, não quantifica o prejuízo, mas afirma ter estado longe do retorno do investido nos cerca de 200 títulos colocados no mercado. Entre eles, houve casos de sucesso. A Vida Sexual de Catherine M., de Catherine Millet, teve edição única em bolso numa parceria com a Asa e vendeu 30 mil exemplares; O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado, vende dez mil exemplares/ano desde 2001, quando foi editado em bolso com a Dom Quixote/Fnac.
Exemplos que não chegam para desfazer a percepção comum a quem trabalha no universo editorial. "Portugal não tem uma cultura do livro de bolso", acusa Lúcia Felizardo. O insucesso é, nesta perspectiva, "uma questão de mentalidade. As pessoas são reticentes face à má qualidade de muitos livros que foram editados neste formato e isso criou um estigma. Também o facto de não serem novidade, bem como a falta de divulgação das colecções". Mário Sena Lopes, director de Actualidades da Dom Quixote, aponta o dedo a quem está no mercado. "O livro de bolso não tem sido uma aposta sustentada nem consistente." António Chaves, da Livros do Brasil (detentora da Vampiro), fala da "noção pouco utilitária" que os portugueses têm do livro como uma das causas de insucesso do pequeno formato.
A estes argumentos há que juntar os custos cada vez mais elevados dos espaços comerciais, o que, aliado ao número de títulos que se publicam (16 mil em 2005), leva a que cada centímetro de exposição seja cuidadosamente calculado pelo livreiro, que, na soma de todas as parcelas, não se sente estimulado a vender livro de bolso. "O que não está exposto não vende. Os livreiros estão a sempre a fazer contas: quantos livros de bolso terão de vender para substituir outro livro nas prateleiras."
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