por
João Miguel Tavares
jmtavares@dn.pt
Esta é uma boa altura: reúna uma pilha de jornais, deite mão a uma tesoura e faça o seu próprio levantamento das más práticas jornalísticas em Portugal. Como acontece sazonalmente, estamos outra vez em época de flagelação mediática. Encontrará com facilidade gente a denunciar nomes que foram arrastados pela lama, paparazzi sem escrúpulos, carreiras postas em causa por notícias falsas. Ainda assim, mantenha a poeira afastada dos olhos - apontar como principal problema do jornalismo que por cá se faz a "manipulação" ou a "tabloidização" é um equívoco estafado.
Nada disso: os grandes pecados dos media nacionais são o comodismo, a desatenção, o respeitinho pelo poder, o alheamento da sua tarefa histórica de watch dog. O problema não está naquilo que se publica mas naquilo que se deixa de publicar - não por acção de uma "matilha" mas por mimetismo informativo. Apenas um exemplo: que fazem hoje os espaços noticiosos das televisões para além de parasitar os jornais diários? Veja--se como a SIC Notícias se transformou num best of dos títulos de imprensa da manhã: lêem-se em voz alta alguns pedaços do que foi publicado, muitas vezes sem citar a fonte, e arranja-se uns bonecos para ilustrar. Noticiário próprio? Nem vê-lo.
O estudo que o Expresso publicou no último sábado, asseverando que 70% das notícias dos jornais provêm de agências e gabinetes de informação, mistura o que não se pode misturar mas alerta para uma situação bem real: a comunicação social está com falta de ideias próprias e presa a velhas rotinas, que impedem a sua renovação. O peso das fontes institucionais é gigantesco, e os jornais borboleteiam em torno do Estado como as mariposas à volta da luz. Infelizmente, a abordagem à qualidade do jornalismo português é feita sempre pelo lado do excesso - excesso de intromissões na vida privada, excesso de sensacionalismo -, quando, na verdade, o seu grande problema não está no excesso mas na falta - falta de agressividade, falta de vigilância, falta de investigação. O pecado, não se enganem, mora aqui.
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