por
Helena Tecedeiro
Para Paulo Carvalho ontem foi um dia diferente: impedido de dar aulas por recomendação da embaixada, o professor manteve-se no bairro de Vilaverde, em Díli, onde garante não ter registado quaisquer incidentes. "Não tenho medo por mim, tenho medo pelos meus alunos", afirma o docente, a viver em Timor-Leste há quatro anos.
Formador de professores, o português, de 33 anos, garante não sentir a segurança directamente ameaçada. Os militares responsáveis pelos confrontos das últimas semanas "não têm nada contra os portugueses", diz, e "o único perigo é sermos apanhados no fogo cruzado".
Mais preocupante é a situação da população local, que Nuno Almeida, de 27 anos, garante estar muito assustada. A leccionar há dois anos em Díli, o jovem sublinha a necessidade de manter a calma para poder transmitir esse sentimento aos alunos. "Os timorenses têm na memória os incidentes de 1999 [que se seguiram ao referendo sobre a independência] e temem que esse sofrimento se repita", garante Paulo Carvalho.
Na capital timorense, muitas escolas estiveram ontem encerradas e os estabelecimentos comerciais fecharam as portas antes do anoitecer, contrariamente ao habitual. "Há tensão, mas não podemos falar em guerra civil", diz João Paulo Esperança. O professor da Fundação das Universidades Portuguesas, que vive em Díli desde 2001, garante: "Os ataques são esporádicos e concentram-se nos arredores da cidade. Não existe uma guerrilha urbana".
Ao contrário de muitos outros docentes em Díli, João Paulo foi ontem trabalhar normalmente. Enquanto os alunos faziam o teste que lhes entregara, ouviram-se tiros numa colina relativamente próxima. "As pessoas têm medo. Muitas estão a fugir para o interior, mas menos do que no 28 de Abril", quando tiveram início os confrontos violentos na capital timorense. O clima de violência que se seguiu a estes incidentes levou milhares de pessoas a deixar Díli e procurar refúgio nas montanhas, nas instalações da ONU e da Igreja.
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