por
Rita Tavares-Teles
Numa avenida de Benfica, a publicidade chega aos correios mesmo no feriado. "É a primeira vez que estou a trabalhar num 1º de Maio", explica Josefa, 33 anos, enquanto espera que do outro lado do intercomunicador lhe abram a porta do prédio. Brasileira, sempre esteve de folga no Dia do Trabalhador, lá e cá, mas como está sem trabalho fixo aproveita as oportunidades: "Ganho 20 euros por dia. Ao feriado, ganho mais e, por isso, prefiro trabalhar. Ganho quase o dobro!" Para além de alguns cafés, naquela zona de Benfica só se vai às compras ao Mercado Asiático. "Os chineses", explica a filha dos donos, 18 anos, já nascida em Portugal, "só não trabalham no Natal. De resto trabalham sempre. É cultural". Ali ao lado, no Centro Comercial Colombo, anda-se calmamente pelos corredores, sem o movimento habitual. Mas com maior ou menor movimento de pessoas, as lojas funcionam dentro do horário do centro. Os supermercados têm regras diferentes. Nuno, segurança do Colombo, conta como no ano passado "O Belmiro de Azevedo fez um acordo com os trabalhadores, em que eles trabalhariam no 1º de Maio, com a recompensa de uma jantarada paga pela empresa". Teriam estado presentes na "jantarada" dirigentes da UGT e CGTP, que, conta ainda Nuno, "convenceram a fazer da folga do 1º de Maio política da empresa". E foi precisamente essa a política que seguiu a maioria das lojas da baixa de Lisboa. Na Rua Augusta, a única loja que chamava a atenção pelo movimento era a multinacional H&M e, mais uma vez, os cafés que preferiram trabalhar foram compensados pela afluência. "Esta casa só fecha no dia de Natal", afirmou com um certo orgulho Vítor Pereira, há 48 anos na Pastelaria Suíça no Rossio. "Uma casa destas não pode estar fechada num dia destes. Tem de haver gente a trabalhar e outros a divertirem-se", defendeu, acrescentando, no entanto: "É pena é serem sempre os mesmos a divertirem-se. Eu nunca tive um 1º de Maio".
A afluência não provocou enchentes, mas foram muitos a marcar presença no Cais de Gaia nos festejos do 1º de Maio da UGT que, pela primeira vez, saiu de Lisboa para assinalar o Dia do Trabalhador.
Uma descentralização que, segundo o secretário-geral, João Proença, recaiu em Gaia por ser "cidade de progresso económico e social", e no Norte por "estar duramente atingido pelo desemprego". A meio do discurso, inesperada mensagem de apoio ao Presidente da República, Cavaco Silva, "pela proposta de um compromisso cívico para combate à pobreza e exclusão".
"Tira a roupa, tira a roupa/do estendal que vai chover", canta o artista popular gaiense Joaquim Alberto, pouco antes da intervenção de João Proença, que se fixou no aumento do desemprego, na insegurança no emprego e na desconfiança quanto ao futuro. Há cerca de 500 mil desempregados no País e , "na região Norte, particularmente atingida pela crise do têxtil, do vestuário e do calçado, o desemprego cresce mais rapidamente e um em cada oito trabalhadores por conta de outrem está desempregado", vincou o sindicalista.
A necessidade de políticas que gerem crescimento económico, competitividade e investimento público foram algumas reivindicações, a par da referência à precariedade, à discriminação e à sinistralidade laboral. Falou-se ainda do direito à negociação colectiva, contra o Código do Trabalho, da revisão da lei dos despedimentos e do aumento da idade de reforma. Críticas também à reforma da Administração Pública.
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