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O discurso e o cravo

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Nuno Brederode Santos  

Vamos então, como tristemente cumpre, ao cravo e ao discurso.

Primeiro, o cravo. Há apenas dois meses, Cavaco insinuava-se de centro-esquerda e as candidaturas de esquerda desmentiam--no com alguma irritação. Na recente cerimónia parlamentar do 25 de Abril, o já Presidente apareceu sem cravo na lapela. A toda a gente de esquerda que com isso se irritou deve-se agora dizer: ou se irritam quando ele é dissimulado ou se irritam quando ele é sincero, mas é preciso reorientar e estabilizar essa irritação. Ninguém é tão irritante que, faça o que fizer, irrite. E eu, que tenho alguma dificuldade em me irritar com tais coisas, prefiro o Cavaco sem cravo ao Cavaco cantor da Grândola.

Agora o discurso. Apesar das interpretações díspares e rebuscadas já feitas acerca dele, creio que, em sereno juízo, se pode dizer simplesmente que o PR foi inteligente ao não fazer um discurso de combate ou sequer significativo. Após mês e meio no cargo e uma longa campanha a proclamar a "cooperação estratégica", já ansiedades várias e até alguns jornais o queriam empurrar para críticas ao Governo e ralhetes aos deputados no Parlamento. Cavaco "inteligiu" (a inteligência não é mais do que isso) esse disparate suicidário e optou, tacticamente bem, por um discurso inane. Tão inane quanto o "compromisso cívico para a inclusão social", amável vacuidade que me fez lembrar a ideia de felicidade que subjaz aos anúncios de champô. Não quis política, nem economia, nem nada que dividisse. Só justiça social, enternecida e programática. Talvez Dickens, mas na estética da família Trapp. Toda a gente concorda que há um desfavorecimento dos mais desfavorecidos, ainda que poucos aceitem ser desfavorecidos por conta do favorecimento deles. Toda a gente gosta de crianças e velhinhos, mesmo que apenas em termos paisagísticos (e por isso se fazem cada vez menos aquelas e se descartam cada vez mais estes). Para mais, há até uma esquerda - transversal, difusa e por isso não organizada enquanto tal - que acredita que um homem de direita é, por definição e maldição moral, hostil aos pobres, pelo que falar de justiça social seria sempre de esquerda. Canduras.

Já agora as palmas. Muita gente aplaudiu este discurso porque muita gente tinha interesse em aplaudir o que foi feito justamente para que muita gente aplaudisse. Uma sinuosidade da alma a que alguns chamam política.


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