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Menos mil médicos mas mais quatro milhões de consultas

 

Nos últimos dez anos, os centros de saúde perderam mil médicos de família mas o número de consultas realizadas aumentou de 24 para 28 milhões por ano - em média, cada clínico passou de 3330 para 4846 consultas/ano. Estas são conclusões de um estudo de cinco clínicos e investigadores que traçaram um retrato do sistema de saúde português nos últimos 40 anos. O livro Cuidados de Saúde Primários em Portugal - Reformar para novos sucessos é hoje apresentado numa conferência sobre a reforma dos centros de saúde.

Os dados apresentados contrariam ainda a ideia de um recurso excessivo das urgências dos hospitais em relação aos centros de saúde. Em período de emergência, estas unidades atendem quase tantas pessoas como os hospitais. Se os hospitais recebem 684 casos por mil habitantes, os centros de saúde atendem 610. Prova de que "o sistema de saúde português está muito centrado nos cuidados de saúde primários", o que é um indicador de melhores resultados. Contudo, isto não se reflecte na distribuição dos orçamentos e dos recursos humanos.

As verbas para investimento, por exemplo, são gastas em 78% nos hospitais e apenas em 22% nos centros de saúde. Também os profissionais de saúde estão maioritariamente nas unidades hospitalares (73%), quando a distribuição devia ser igualitária, o que prova "que não existe uma política clara de recursos humanos na saúde". Durante mais de dois anos, foi analisado o funcionamento dos cuidados primários cruzando vários dados - dos índices de mortalidade infantil ao financiamento, passando pelos recursos humanos disponíveis. Foram ainda tidos em consideração os resultados nove inquéritos de satisfação dos utentes. Se a qualidade dos cuidados de saúde motivam uma avaliação positiva, o mesmo não se pode dizer das condições de acesso, do tempo de espera e da qualidade das instalações. "Não se conseguiu ultrapassar o 38.º lugar do ranking da Organização Mundial de Saúde no conforto, horários ou tempos de espera e o 58.º na justiça da contribuição financeira" das famílias para as despesas com a saúde.

Quanto ao impacto dos serviços na saúde dos portugueses, regista- -se uma "grande evolução". "Os indicadores que colocavam Portugal na cauda da Europa em 1960, colocam-no agora na frente", explica o médico André Biscaia, um dos autores do livro. Se a evolução da taxa de vacinação e mortalidade infantil "sofreram uma melhoria acentuada", há outras áreas em que houve desinvestimento: 13% da população é obesa, menos de 10% pratica exercício físico, 19% fuma e o número de infectados com HIV ou tuberculose é dos mais altos da Europa.


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