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A revolução falhada do futebol português

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Rui Frias  

Foi há dez anos que a aprovação de uma proposta do Governo, então liderado por António Guterres, de alteração à Lei de Bases do Sistema Desportivo, abriu caminho à formação das sociedades anónimas desportivas (SAD) no desporto português - Sporting e FC Porto foram os pioneiros, em finais de 1997. A medida surgiu como uma solução para a grave situação económico-financeira que os clubes atravessavam, mas, uma década depois, percebe-se que a revolução falhou: a maioria das SAD apresentam défices sistemáticos, algumas já fecharam portas (Alverca, Farense, Académico Viseu) em processos de falência e o futuro é olhado com preocupação.

O que falhou então pelo caminho? "Este não é um problema da forma, é um problema do conteúdo", confessa ao DN um dirigente ligado ao nascimento das SAD. Acima de tudo, trata-se de um problema de gestão, que mantém os mesmo vícios de antes: demasiados custos para poucas receitas. "As SAD vivem acima das suas possibilidades".

Para Fernando Almeida Cardoso, docente de marketing desportivo no IPAM e autor de um livro sobre a transformação dos clubes em sociedades anónimas desportivas, a culpa é essencialmente dos dirigentes: "Os problemas das SAD são os mesmos problemas que tinham os clubes, porque as pessoas que estão à frente delas são as mesmas. E se as pessoas são as mesmas, a estratégia também". Opinião partilhada por Rui Meireles, administrador da SAD do Sporting, que tem um passivo consolidado de 277 milhões de euros. "A velocidade a que se desenvolveu o futebol não foi acompanhada pela velocidade de evolução dos dirigentes".

Fernando Gomes, da SAD do FC Porto, aquela que mais proveitos obteve ao longo deste caminho graças aos títulos europeus da UEFA e Liga dos Campeões, mas mesmo assim acumula um passivo superior a 120 milhões de euros, lembra dois factores que condicionaram a actividade das sociedades: "A lei Bosman, ainda antes das SAD, que levou a um crescimento acelerado dos custos com salários dos jogadores e que os clubes não estavam preparados para suportar; e as limitações do mercado português, que não permite potenciar receitas ao nível de outros mercados europeus e, por outro lado, também não permite reduzir muito os custos para não se perder a competitividade". Depois, houve ainda o endividamento na altura da construção dos estádios para o Euro 2004, lembra o sportinguista Rui Meireles, que "criou um peso muito elevado de encargos financeiros, designadamente à banca". No Sporting, por exemplo, "25% dos proveitos são para fazer face a encargos financeiros", ilustra.

Mas nem tudo falhou. Pôncio Monteiro, adepto do FC Porto e um crítico de primeira hora das SAD, concede "o maior rigor e transparência nas contas" e a "clarificação dos problemas das dívidas fiscais e à Segurança Social". Fernando Gomes acrescenta "o acesso a outros meios e mercados financeiros" e lembra a "injecção de capital" que a constituição das SAD permitiu. Rui Meireles não concebe "um futuro sem as SAD", acredita que elas "são viáveis", mas acena com a necessidade de "uma série de reestruturações não só internas como ao nível das competições". Desencantado com todo o processo, um dirigente ligado à criação das SAD lança o aviso: "Este é um caminho que não leva a lado algum. Ou as pessoas que estão no futebol são capazes de mudar a gestão, ou, se não são, é o mercado que vai acabar por fazê-lo". E quem é o mercado? "São os bancos e as pessoas que têm dinheiro investido nas SAD e que não estão para perder dinheiro. E as SAD passarão a ser geridas de fora para dentro."


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