Acordei com um barulho que me pareceu ser de um tiro e olhei para o despertador. Foi entre as 00.25 e as 00.30. Levantei-me e fui à janela da frente, pensei que pudesse vir dos lados do café, mas não vi nem ouvi nada. Achei que tinha feito confusão e adormeci outra vez." Olhasse por outra janela e este morador da urbanização das Vilas da Serra podia ser uma testemunha vital de uma história envolta em mistério e contradições.
É muito perto da casa que habita, num pequeno pinhal, que os amigos de Paulo Duque, o jovem de 19 anos que na madrugada de 5 para 6 de Fevereiro foi baleado mortalmente por um agente da GNR, garantem ter encontrado uma grande mancha de sangue, entretanto lavada pelas chuvas de Inverno. "Depois eles [os guardas] pegaram nele e arrastaram-no por aqui fora [cerca de 50 metros de terreno acidentado] até este candeeiro."
Ao pé do candeeiro está rua alcatroada e carros estacionados, e em frente um prédio de apartamentos onde ninguém viu ou ouviu nada. É pelo menos o que dizem os moradores a quem lhes bate à porta a perguntar sobre o ocorrido. Na pequena e quieta urbanização, onde num dia de semana impera um silêncio fundo às sete da tarde, parece incrível que um tiro não tivesse sobressaltado toda a gente. Mas coisas incríveis acontecem.
Por exemplo nesta noite, uma noite de domingo como todas as outras em Penalva, zona rural do concelho do Barreiro. À beira da hora de fecho, os dois cafés da zona partilham a meia dúzia de clientes do costume. Paulo é um deles, desses rapazes de pose descaída, rebelde, que moram perto e passam por aqui os dias, entre cervejas, cigarros, conversas e ocasionais confrontos. Está-lhes na idade, talvez - é assim que um dos habitantes, dos poucos que aceitam falar sobre "o caso", o lembra. "Um rapaz rebelde, muito provocador. Mas eu dava-me muito bem com ele, era bom miúdo."
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