por
Vicente Jorge Silva
Jornalista
Há dias, num colóquio organizado pela revista Cais, perguntaram- -me o que é que pensava sobre a criação de uma Ordem dos Jornalistas. A questão era oportuna mas também incómoda - por vários motivos. Primeiro, porque tenho uma aversão epidérmica às organizações de tipo corporativo (que habitualmente tendem a defender os seus associados mesmo quando estes têm comportamentos eticamente indefensáveis); segundo, porque certas tentativas passadas de formação de uma Ordem dos Jornalistas foram inspiradas pelo mero desejo de protagonismo mitómano dos seus promotores, o que lhes retirava qualquer credibilidade; terceiro, porque tenho fundadas dúvidas de que a actual maioria dos jornalistas portugueses, nestes tempos de tabloidização galopante, estejam efectivamente interessados em bater-se por uma autêntica ética profissional.
Em todo o caso, acabei por responder que sim, apesar dos engulhos que me provocam a palavra Ordem e as suas conotações corporativas, preferindo talvez um termo menos carregado, como Associação. É que nunca, numa já longa experiência de jornalista, senti tanto a falta de uma organização que tivesse o objectivo específico de enquadrar, no plano ético e deontológico, o exercício da profissão. Nunca como agora me pareceu que a condição do jornalista estivesse tão permeável à degradação dos padrões éticos e profissionais - e, por isso mesmo, tão vulnerável à pressão intrusiva dos poderes (político, judicial, económico) que visam condicionar, tutelar e submeter a actividade jornalística a uma lógica que lhe é estranha, destruindo a sua autonomia, instrumentalizando a sua função mediadora, promovendo a promiscuidade com outros géneros e convertendo o jornalista num servil agente propagandístico de interesses alheios ao seu estatuto na sociedade.
Sou do tempo porventura romântico e quase anacrónico em que o jornalismo se definia como contrapoder, não porque se assumisse como actividade militante contra os poderes estabelecidos, mas porque se colocava numa lógica exterior ao funcionamento desses poderes e tinha em relação a eles um papel de observação e distância crítica, de vigilância democrática e cívica, uma exigência ética no relato rigoroso dos factos e na sua interpretação isenta e imparcial. Nada disto era contraditório - como agora se pretende fazer crer - com a imaginação, a criatividade ou o direito à subjectividade do olhar jornalístico, desde que se perseguisse a paixão da verdade e se respeitassem as regras técnicas de aproximação à objectividade informativa.
A forma irresponsável e aventureira como se procedeu, num Governo chefiado por Cavaco Silva, ao licenciamento de dois canais televisivos privados (a SIC e a TVI, privilégio então concedido à Igreja Católica - como longe vão já esses tempos!) provocou a desregulação selvagem da paisagem audiovisual portuguesa. Num país pequeno, com baixíssimos níveis de literacia e de mercado muito escasso, quer em audiências quer em receitas publicitárias, a concorrência feroz entre três canais televisivos generalistas (sem contar a RTP2) não só redundou numa degradação acelerada das respectivas programações e numa espiral incontrolável de vulgaridade, como não trouxe uma oferta de conteúdos verdadeiramente plural e alternativa ao antigo monopólio da televisão pública.
Além disso, o mimetismo do "salve-se quem puder" entre as televisões foi contaminando a imprensa (não apenas a chamada "popular", mas também a dita de "referência"), empurrando-a para uma sintonia, até por motivos de sobrevivência comercial, com o nivelamento por baixo do "modelo televisivo". As excepções a esta tendência mais ou menos generalizada apenas confirmam a regra e não diluem os efeitos trágicos da tabloidização informativa, com todas as suas tremendas sequelas (incluindo a precariedade profissional do estatuto jornalístico). Finalmente, a crescente vulnerabilidade do poder económico ao poder político foi-se fazendo sentir, com um despudor sem precedentes, nos critérios editoriais e até nos negócios das empresas de media.
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