Cavaco Silva tinha prometido uma "longa conversa" com o primeiro-ministro mal iniciasse funções como Chefe do Estado. E cumpriu a promessa. José Sócrates permaneceu ontem duas horas e meia no Palácio de Belém. Entrou às 17.00, de fato cinzento e gravata vermelha, sem dizer uma palavra. Saiu às 19.30, acompanhado do seu chefe de gabinete, Luís Patrão, e do assessor de imprensa David Damião, também sem prestar declarações. O novo chefe da Casa Civil da Presidência da República, Nunes Liberato, foi levá-lo à porta.
Primeira diferença significativa entre o palácio anteriormente ocupado por Jorge Sampaio e aquele que Cavaco ocupa agora: um reforço notório da segurança. Os agentes, fardados e à paisana, são em maior número e mostram-se mais atentos aos movimentos dos visitantes, incluindo jornalistas. Há uma outra diferença, mais subtil mas politicamente mais relevante: Cavaco recebeu Sócrates não no habitual sofá reservado aos anteriores encontros entre Sampaio e o chefe do Executivo mas à volta de uma pequena mesa circular, sugerindo desde logo uma atmosfera de trabalho. Mais austera, mais de acordo com o perfil cultivado pelo próprio Cavaco durante os dez anos que permaneceu em São Bento como primeiro-ministro.
O encontro prolongou-se mais tempo do que o previsto. De tal modo que Sócrates se viu forçado a adiar a sua presença num compromisso que agendara para as 19.00.
O início da cooperação estratégica começou, assim, com dois sinais políticos: a mesa de trabalho e a demora da reunião.
Do lado de São Bento, admite-se que, por muitas tentações de intervenção que Cavaco Silva possa vir a ter, os condicionalismos do cargo e dos poderes do Presidente da República levarão a um magistério moderado. Para Belém serão enviados em breve a legislação sobre o cartão único do cidadão e o pacote da saúde, recentemente aprovado em Conselho de Ministros.
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