Um foco de luz ilumina metade do rosto da mulher. Os olhos não se distraem com a câmara, focam um ponto baixo e remetem a expressão para a boca. Espanto, prazer, distracção... Um braço atirado para trás num banco que pode ser de comboio ou avião ajuda a compor um retrato de abandono. São leituras possíveis de uma imagem que foge ao cliché. Não há a pose desafiadora da mulher com boquilha. Há o paradoxo a sugerir a multiplicidade, um uno feito de contradição. É Natália Correia nos anos 50, numa fotografia tirada pelo segundo marido, William Creighton Hyler, na viagem que fizeram aos Estados Unidos logo após o casamento.
Ana Paula Costa escolheu essa imagem como a primeira da Fotobiografia de Natália Correia, que a Dom Quixote apresenta amanhã, dia 16, no Palácio Galveias, em Lisboa (19.00). "Queria que as pessoas olhassem para a capa do livro e ao lerem 'Natália Correia' não reconhecessem a protagonista na fotografia. Tentei aplicar aquele princípio da comunicação paradoxal." O efeito deveria ser o de surpresa para retratar alguém que nunca foi previsível.
São mais de 300 imagens para reconstruir um perfil noutras tantas páginas. A contabilidade não é de um para um. Obedece a um equilíbio entre história e estética e encontra forma no contraponto: de imagens e de testemunhos. A autora excluiu a sua voz do texto que acompanha as imagens e deu a palavra à obra poética e ficcional de Natália Correia. É dela o fio condutor da fotobiografia, uma forma de divulgar a sua escrita a quem não a conhece ou se fixa apenas no "folclore" da sua figura.
"O importante não era a minha análise, mas dar voz aos outros, aos que a conheceram intimamente", disse ao DN esta açoriana, como Natália, que durante cerca de um ano ouviu testemunhos e abriu mais de 700 envelopes do espólio da escritora na Biblioteca Nacional. "Uns tinham uma imagem, outros 60." O material era tanto e tão rico que a selecção se revelou a tarefa mais difícil. "Dava para fazer vários volumes. Este poderia ser apenas o primeiro." Sugere mesmo que alguém se aventure num sobre a correspondência.
É um aparte nesta história que começou em 2001, "ainda os direitos de autor eram em escudos", lembra, incapaz de precisar a data em que Inês Pedrosa sugeriu o seu nome à Dom Quixote para este trabalho. Aceitou e mergulhou na leitura e releitura dos textos da autora de Mátria. "Conheci-a no Botequim, tinha eu uns 23, 24 anos. Dava-me com amigos dela. Líamos poesia em voz alta..." Só isso. Passaram mais de vinte anos até se aperceber de que a memória de Natália Correia persiste muito viva em cada um dos que privaram com ela. Como se as pessoas se apropriassem dela. "Cada pessoa que contactei me disse: 'Eu é que conheci a verdadeira Natália!'"
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