por
Fernanda Câncio
fernanda.m.cancio@dn.pt
Não há símbolo mais pungente do que é entendido como a quota das mulheres na política que o papel desempenhado pelas cônjuges dos presidentes.
Nulo em termos constitucionais - como é óbvio, ou não será? -, o lugar da "senhora" do eleito Chefe do Estado tem vindo, no progressivo desenho das suas actrizes, a ocupar cada vez mais espaço. Merece até, desde há dez anos, consignação legal num decretado gabinete "de apoio ao cônjuge".
Foi a pretexto da existência de tal gabinete e das "obrigações" e "responsabilidades" que ele implicaria que Maria José Ritta encenou um "passar de pasta" à sua sucessora. E terá sido a pretexto da existência protocolar das respectivas dignidades que durante a tomada de posse do novo Presidente a "primeira dama" cessante e a actual ostentaram, na galeria da Assembleia da República em que estavam sentadas, a curta dança de cadeiras da sua troca de "lugar".
Em directo, mas talvez sem espanto, o país assistiu ao fenómeno. A ideia de que numa democracia republicana existam "funções" ou até "dignidades oficiais" por via do matrimónio não apela, pelo visto, ao sentido do ridículo (e de deslustre do regime) de toda a gente. E, também, que mal tem, pensar-se-á. Se elas têm gosto naquilo e se "aquilo" é sobretudo uma função ornamental, de sorrisos, fatiotas e penteados, com umas inaugurações de asilos e de exposições de artesanato mais uns discursos "pelas crianças" e contra a violência doméstica, faz alguma diferença?
Diferença nenhuma, precisamente, o que a faz toda. Reiterando todos os estereótipos daquilo que se espera de uma mulher "pública", o primeiro dos quais é ser apêndice de um homem público (abdicando até da profissão), as primeiras damas certificam, com o seu "alto" exemplo, todas as más práticas das relações de género e do género de relação que o mundo da política tem com as mulheres. Sendo julgadas pela aparência e aceitando sê-lo (não se apressou Maria Cavaco a fazer saber, mal o marido foi eleito, que contratara um estilista?), avalizam os dichotes sobre o penteado da actual ministra da Cultura e os gritos de "bruxa" com que Manuela Ferreira Leite foi mimoseada no Parlamento (alguém está a imaginar deputados e comentadores a usar com um ministro homem dos mesmos parâmetros, tipo, ó gordo careca vai pra casa?). Restringindo-se aos temas "suaves", "femininos", demonstram que a política "a sério" é para eles e só para eles.
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