por
Fernanda Câncio
fernanda.m.cancio@dn.pt
Alguns comentadores (re)descobriram, com escândalo, o terrífico poder do agendamento mediático. Um poder cuja particular perversidade lhes surge inversamente proporcional à sua identificação com as "agendas" em causa, evidentemente.
Destes tácticos escândalos está, como é sabido, cheia a História. É agora a vez da "agenda LGBT (lésbica, gay, bissexual e transexual)" e das reacções que a crescente visibilidade das suas causas vão suscitando. A mais pungente vem do director do Público, que, no afã de denunciar o tenebroso conluio entre tais esconsos objectivos e o que apelida de "valores do jornalismo dominante", encontra no jornal Expresso (um famoso reduto da comunidade LGBT e outras modernices, como é sabido) e no DNexemplos da "montagem de uma agenda política" que, a seu ver, culminou na tentativa de casamento ("montada", claro) de duas mulheres, ocorrida a 1 de Fevereiro.
Que José Manuel Fernandes (JMF) tenha iniciado a sua corajosa denúncia não no jornal em cujo cabeçalho é referido como director mas numa obscura revista mensal, prosseguindo o seu valoroso intento em entrevista a OIndependente, demonstra bem o poder de condicionamento da dita agenda - afinal, em que mundo vivemos quando alguém se sente coibido de opinar sobre um assunto no jornal que supostamente dirige?
Significativo também é que JMF tenha escolhido como exemplo da dita "montagem" aquilo que reputa de "mau jornalismo" do Expresso - uma manchete de Dezembro declarando a existência de um milhão de homossexuais em Portugal a partir de uma sondagem com óbvias debilidades - e o facto de vários jornalistas do DNterem assinado uma petição a favor da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ignorando o acaso, público e notório, de ter sido o jornal que aparentemente dirige o primeiro a dar amplo destaque (que chegou a foto que ocupava quase toda a capa, com as duas mulheres de mão dada) à tal tentativa de casamento que tinha, frisa, "todos os ingredientes para pôr um certo jornalismo a salivar" e cujo objectivo - inconfesso e secreto, claro - seria "obter larga cobertura mediática".
Na citada entrevista a O Independente, porém, JMF explica-se: afinal, não se refere ao Público porque ali "o trabalho foi sempre bastante equilibrado". Ou seja, afinal o problema não estava no nível de salivação nem na extensão da cobertura dada ao caso. Não: o problema, explica JMF, é o jornalismo "assumidamente de causas". Isso, sim, faz-lhe "confusão". Mas ressalva: o problema não é um jornalista ter opinião, e expressá-la, sobre as coisas sobre as quais escreve. (Ele, por exemplo, lá adianta ser "contra o casamento homossexual nos termos radicais em que os militantes da causa o querem institucionalizar" - o radicalismo, bem entendido, de o fazer casamento como os outros).
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