Oconceito de monumento histórico aplica-se quer às grandes criações, quer às realizações mais modestas que tenham adquirido significado cultural com o tempo". O excerto é da Carta de Veneza, de 1964, documento axial no normativo internacional para a área do património. Volvidos 40 anos, porém, Portugal continua a actuar como se esse normativo e a consciência que o produziu não existissem.
Entre as principais vítimas desse alheamento está o património do século XIX e seu prolongamento pelos alvores do século XX, imagem forte das cidades que herdámos edifícios de habitação burguesa ou operária, complexos industriais ou outros, crescentemente acossados pela construção nova e, não raras vezes, por intervenções desqualificadas e desqualificadoras quando mantidos. A perda integral da última casa de Garrett, à Rua Saraiva de Carvalho, em Campo de Ourique, veio relembrar esse destino comum.
Um estatuto ganho a pulso
"Mal-compreendida e mal-amada", como a define Regina Anacleto, investigadora e docente da Universidade de Coimbra que fez desta a sua área de especialização, a arquitectura de Oitocentos teve um reconhecimento tardio. Como tardia foi a aceitação da sua faceta revivalista e ecléctica, cujo estatuto "foi sempre desprezado", lembra ao DN, "apesar de, pela sua importância e valor, ocupar um lugar igual ao de outros estilos artísticos como o barroco, o gótico ou o românico". Um estatuto de maioridade que tem sido ganho a pulso e que a investigadora espera ver consolidado, sobretudo agora que o século XIX deixou de ser "o século passado".
"A consciência da importância da arquitectura e do urbanismo de Oitocentos ocorre, a nível europeu, a partir dos anos 60", lembra, por seu turno, o historiador de arte José-Augusto França, pioneiro no seu estudo e ensino em Portugal, para quem o facto de essa "consciência ser recente" não pode continuar a servir de desculpa sob pena de, um dia, descobrirmos ser tarde de mais.
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