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Encarar a deficiência com uma nova mentalidade

 

Ainda de cabelo molhado, Miguel André sai da piscina e atravessa o átrio a acelerar na cadeira de rodas para se colocar junto aos seus quadros amarelos, vermelhos e azuis, em exibição na galeria O Corredor. Ali se mostram as obras que nascem no atelier de artes plásticas da Liga Portuguesa de Deficientes Motores (LPDM). E Miguel tem motivos para estar orgulhoso, pois, aos 30 anos, não só é um dos mais famosos artistas da Liga como, graças à instituição, teve o privilégio de conhecer artistas verdadeiramente famosos, como Manuel Cargaleiro, José de Guimarães, Lagoa Henriques ou Graça Morais.

Benfiquista ferrenho, apesar de não saber falar, Miguel sabe muito bem quantos golos marca o seu clube e até fez um quadro em homenagem a Simão Sabrosa. Talvez o venda esta tarde a algum dos convidados para a sessão inaugural das comemorações do cinquentenário da Liga, que se assinala a 16 de Abril. É que por aquele corredor vão passar o Presidente da República, Jorge Sampaio, e a sua mulher, a secretária de Estado adjunta da Reabilitação, Idália Moniz, e até o guitarrista António Chainho, que irá actuar antes dos discursos oficiais.

Fundada em 1956 por João dos Santos, Rosa Benfeito e outros especialistas da saúde, da educação e da cultura e por alguns pais, todos voluntários, a Liga foi evoluindo com a sociedade, com a mentalidade e com os diferentes tipos de deficiência que foram surgindo. Nos anos 90, a LPDM transformou-se em Centro de Recursos Sociais, "ampliando a sua intervenção às pessoas com condicionamentos da mobilidade, da comunicação ou orientação, ou a outras situações de desvantagem social", explica a presidente da direcção, Guida Faria, que foi uma das fundadoras. Actualmente são mais de seis mil as pessoas, com diferentes tipos de deficiência mas todos muito dependentes, que anualmente procuram a sede da Liga, inaugurada em 1986 na Ajuda, em Lisboa.

Com cerca de 300 funcionários, alguns voluntários e muito boa vontade, a associação oferece apoio médico (por exemplo, neurologia e psicologia) e especializado (fisioterapia, terapia da fala, terapia ocupacional, entre outros), além de uma série de actividades - natação, ginástica, remo adaptado, hipoterapia, equitação, dança, modelagem em barro, pintura. E muito carinho. Os deficientes profundos podem passar os dias nas suas cadeiras, têm colchões para descansar e salas semiescuras para relaxar, com música calma e pessoas amigas que lhes fazem festinhas e sussurram aos ouvidos. "O toque é muito importante, para alguns é a única forma de comunicação", explica Isabel Amaro, coordenadora da Escola de Ensino Especial.

Os que têm capacidades de aprendizagem, aprendem. Primeiro, a comunicar e a socializar. A andar e comer sozinhos. Aos poucos. Alguns aprendem a ler e a fazer contas, usam o computador, adaptado ou não à sua deficiência. Aprendem trabalhos simples, como a rasgar tiras de papel de revista para colar sobre um balão e fazer uma máscara ou um gato decorativo. "Fazemos muitas coisas por encomenda ao nosso ritmo, que é lento. Mas as peças são muito bem feitas", garante a coordenadora do Centro de Actividades Ocupacionais, Luísa Rodrigues. O dinheiro obtido é depois aplicado em idas ao cinema e a museus, passeios e colónias de férias, umas escapadelas ao McDonalds. "São como os outros jovens, gostam de ir almoçar fora."


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