O clima mediterrânico e ameno do território continental português está a mudar e quase nem seriam necessários estudos para dizê-lo, face à acumulação de sinais recentes. Mas os estudos confirmam os sinais. Mais secas e ondas de calor mais prolongadas, risco de erosão costeira em 67% do território continental, quebra nas reservas de água na generalidade dos aquíferos, diminuição drástica da precipitação no Inverno e perda de biodiversidade são apenas algumas das previsões preocupantes do estudo Alterações Climáticas em Portugal, Cenários, Impactos e Medidas de Adaptação, o chamado SIAM II.
Os resultados da pesquisa, a mais vasta e detalhada de sempre sobre a mudança climática e as suas consequências para Portugal, que foi coordenada pelo físico Filipe Duarte Santos, da Faculdade de Ciências de Lisboa (FCUL), são hoje lançados em livro, pelas 18.00, na Fundação Gulbenkian. O Presidente da República, Jorge Sampaio, e o ministro do Ambiente, Nunes Correia, estarão presentes no lançamento.
Os cinco anos mais quentes em Portugal desde que há registos de temperaturas, ou seja, dos últimos 150 anos, aconteceram na última década. O recorde absoluto foi batido em 1998, mas três destes anos são posteriores a 2000. Em 2003, Portugal - e toda a Europa - viveu a onda de calor mais intensa e prolongada de que há memória, com quase duas mil vítimas mortais directas.
Esses fenómenos, com as respectivas consequências na saúde, nas reservas de água potável ou nos incêndios florestais, são uma espécie de antevisão do futuro, avisam os cientistas. Dentro de poucas décadas, esse poderá ser um dos cenários climáticos frequentes no território continental, sobretudo nas regiões do Sul e interior do País (Alentejo e Algarve). "E o País terá que se preparar para isso", avisa o coordenador do SIAM.
Aquela não é, no entanto, a única alteração climática prevista para as próximas décadas no território do continente. O SIAM II, o estudo mais completo e abrangente de sempre sobre a mudança climática e o seu impacto no território nacional, está cheio de alertas. Do risco de erosão em 67% da costa portuguesa à diminuição das reservas de água potável nos aquíferos de norte a sul, da intensificação das secas ao risco acrescido de incêndios florestais, da perda de biodiversidade à queda de produtividade agrícola nos cereais, os impactos são vastos e "vão exigir estratégias políticas sectoriais", sublinha Filipe Duarte Santos.
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