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Socialistas desavindos forçados a entender-se

 

Éum incómodo, mas não tem que ser um problema" - é desta forma que um destacado dirigente do PS resume a futura relação entre o partido e Manuel Alegre depois das eleições presidenciais. O deputado levou a melhor na noite eleitoral e voltará ao Parlamento com mais de um milhão de votos no bolso, coisa nunca vista em Portugal. O clima é como na Guerra Fria a força de Alegre e de José Sócrates é dissuasora. Ambos sabem que um "ataque" pode prejudicar as duas partes. Estarão, por isso, condenados a entenderem-se, pelo menos para já.

As declarações nesse sentido começaram logo na noite eleitoral, com o secretário-geral socialista a garantir que "não vai haver dentro do PS nenhum ajuste de contas". A direcção socialista está convencida de que a aposta do poeta para rentabilizar politicamente os seus votos passará sobretudo por uma associação ou movimento cívico, e não por uma guerrilha dentro do PS. O próprio Alegre já deu sinais claros nesse sentido. Isto apesar de vários membros do núcleo duro da sua candidatura estarem a pressioná-lo para não deixar cair o "movimento de cidadania" lançado há três meses na corrida a Belém. "Isto não é para ficar por aqui. Todas as pessoas estão a pedir continuidade", garante ao DN Helena Roseta, que integrou a comissão política do candidato.

Com pouco peso na estrutura partidária - terá o equivalente aos 16% que conseguiu no congresso -, a força de Alegre está sobretudo no Parlamento, onde é tradicionalmente uma voz incómoda e onde tem muitos compagnons de route (ver texto na página 3). Uma eventual cisão no grupo parlamentar, onde a maioria absoluta do PS depende de seis deputados, poria em causa a governabilidade, mas esse é um cenário em que ninguém parece acreditar.

"Ele tem amigos no grupo parlamentar que, somados, podem pontualmente causar problemas sérios, mas não acredito que isso aconteça porque não têm espaço para isso", diz ao DN um colaborador próximo de Sócrates. Traduzindo boa parte dos "alegristas" estão hoje em cargos de relevo na direcção do grupo parlamentar e nas comissões especializadas, o que lhes condiciona a acção. Foram, é esse o termo utilizado por um dirigente, "reabsorvidos".

Também os amigos de Alegre desvalorizam os reflexos das presidenciais na bancada socialista. "Manuel Alegre não está no Parlamento na qualidade de candidato presidencial, mas como um deputado igual aos seus pares", diz Strecht Ribeiro. "Porque é que ele alteraria o seu comportamento por ter sido candidato presidencial?", interroga-se este deputado. Precisamente basta ao poeta não alterar o seu comportamento para ser uma dor de cabeça para Sócrates. "Alegre pode sentar-se nesse milhão de votos, mas não pode fazer com eles mais do que já fazia antes", constata Francisco Assis, que era líder parlamentar numa das vezes em que o poeta enfrentou a direcção do partido.


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