"Por uma unha negra", lamentava-se ontem à noite pelos cantos da sede na Rua Marquês de Fronteira. Durante uma hora, ainda houve quem alimentasse expectativas. Às 20.30, quando a RTP indicou 49,5% como margem mínima para a votação de Cavaco Silva, a ansiedade aumentou nas exíguas instalações da candidatura. Logo soaram gritos estridentes "Alegre! Alegre! Alegre!"
Foi rebate falso. À medida que os minutos se escoavam, tornava-se evidente que Manuel Alegre falhava pela margem mínima o principal objectivo que o levou a disputar as presidenciais evitar a eleição de Cavaco logo à primeira volta. Encerrado numa zona do andar interdita a jornalistas, o poeta foi um dos últimos a perder a esperança. Quando já grande parte dos elementos do seu núcleo duro admitiam a derrota, ainda Alegre sonhava com a inversão dos resultados. "Eles vão ter uma surpresa", foi repetindo ao longo da campanha. Nunca especificou a quem se referia. Mas a surpresa, a que tantas vezes aludiu, era o segundo lugar na corrida a Belém- à frente de Soares, que os adeptos de Alegre consideram ter sido "levado ao colo" pela generalidade dos comentadores políticos durante a campanha e pela empresa Eurosondagem, que teimou em colocar o poeta na terceira posição.
"A democracia é difícil"
A surpresa aconteceu Alegre foi segundo, mas sem evitar a maioria absoluta de Cavaco. "A democracia é uma coisa difícil", observava o actor Rui Mendes, uma das raras figuras públicas que aguardaram a marcha dos resultados na atulhada sede, onde sobravam cidadãos anónimos e escasseavam televisores. Cada ecrã era disputado por dezenas de pessoas ávidas de notícias, dificultando ainda mais os movimentos dos jornalistas.
Com Alegre ainda recolhido, a primeira reacção oficial surgiu pela boca de Luís Moita, membro da Comissão Política da candidatura. Inês Pedrosa, a habitual porta-voz do poeta, participava nesse momento como comentadora num canal de televisão.
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