por
Pedro Santana Lopes
Dizer o que se pensa em Portugal significa, por vezes, ouvir depois o que outros pensam que dissemos ou o que outros querem que digamos. Isto a propósito de dois assuntos diferentes mas conexos um com o actual Presidente da República; o outro com o mais provável sucessor.
1 - Peço rigor a Jorge Sampaio, a quem, como já disse, por várias vezes, só responderei quando deixar de ser Presidente da República. Mas o respeito que tenho mantido não pode permitir ao Chefe do Estado resguardar-se nessa condição para elaborar - como faz na sua fotobiografia - o que supõe que pensava o anterior Governo sobre a contenção do défice ou sobre outras questões. É que, estranhamente, sendo sua a fotobiografia, o Presidente Jorge Sampaio não conta a sua posição na altura sobre o défice (nomeadamente na reunião que tivemos a 13/10/04 e em que me fiz acompanhar pelo ministro das Finanças). Porquê?
Julgo que as palavras de autoria do Presidente Jorge Sampaio já começam a ser involuntariamente esclarecedoras sobre o que foi o seu estado de espírito, desde o início, com o meu Governo. Mas é também elucidativo o que representa, a nível institucional, a revelação de telefonemas para militantes do PPD/PSD enquanto tratava do assunto com Durão Barroso. E também o significado para a dissolução do Parlamento, de um passeio na Av. da Liberdade…
2 - Dei uma entrevista à SIC Notícias sobre o momento político em que expus diversas considerações sobre as eleições presidenciais. A SIC Notícias passou a entrevista na íntegra, por três vezes, e os analistas políticos foram íntegros nas opiniões subsequentes, mesmo que alguns tenham sido naturalmente discordantes.
No entanto, o sound bite que seria reproduzido nas televisões sobre esta entrevista - o único visto por milhões de portugueses que não têm TV Cabo - daria conta de um entrevistado que apenas quis alertar para o "sarilho institucional" que se poderia criar com a vitória de Cavaco Silva e, na leitura de quem viu apenas a síntese, de alguém animado tão-só pelo desejo de "vingança" que não considera interesses superiores. Não foi isso que aconteceu. Nem este artigo representa um recuo em relação à entrevista, porque não se recua quando se repõe a verdade.
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