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Esta campanha é mesmo muito estranha

por

João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Professor universitário  

Aactual campanha para a eleição presidencial é muito estranha. Começa logo por ser a primeira que, seis meses antes da votação, ainda não tinha qualquer candidato assumido. Os caprichos do calendário, colocando-a poucos depois de legislativas e autárquicas, assim o determinaram. Apesar desse atraso, surpreendentemente, acabou por igualar o recorde de 1980 do máximo de pretendentes, com seis nomes no escrutínio.

No entanto, o mais curioso de tudo é que todos os candidatos, menos um, passam o tempo quase todo a falar desse um. O prof. Cavaco Silva é, sem dúvida, o assunto dominante destas eleições. Parece que não há dificuldades, obstáculos, decisões. Descobrimos que o principal problema de Portugal é... o prof. Cavaco Silva. Parece que não existem oposições graves entre esses mesmos opositores. Naturalmente que Cavaco Silva fala de si e das suas propostas. Mas os outros... também. Todos falam só dele, e o que fala menos até é ele.

Assim, pode dizer-se que esta campanha tem sido uma longa, emocionante e diversificada expedição contra o prof. Cavaco Silva. De repente, a política portuguesa voltou 20 anos atrás. Ganhou-se uma súbita nostalgia pelos anos 80. Regressou-se aos tempos sem telemóveis nem Internet. Voltaram à berra acontecimentos esquecidos e irrelevantes. Parece que, afinal, os Governos desse tempo é que têm a culpa de tudo, do défice actual ao aquecimento global. A actual campanha presidencial é mesmo muito estranha!

Alguns dos argumentos utilizados são bastante curiosos. Por exemplo, um dos mais repetidos é que o ex-primeiro-ministro domina demasiado bem os dossiers e isso criará problemas à sua Presidência. Este raciocínio é no mínimo abstruso. Porque, das duas, uma ou esta eleição tem alguma coisa a ver com os graves problemas que nos preocupam, e nesse caso conhecer bem os assuntos é uma clara vantagem para o Presidente; ou não tem nada a ver com isso, e então o melhor seria decidirem o resultado com moeda ao ar, poupando o esforço e custo do escrutínio. Mas este argumento esconde um outro facto evidente, que tem ficado omisso. É que não é possível fazer acusação semelhante a nenhum dos opositores. Se virmos bem, os outros candidatos de facto não percebem nada dos assuntos. Isto não é insulto, mas simples constatação. Se o Presidente da República não tiver de lidar com as questões nacionais, eles estão particularmente bem adequados à missão.

Dos cinco opositores ao prof. Cavaco, quatro nunca desempenharam qualquer cargo público de responsabilidade. Têm grande traquejo partidário, longa militância oposicionista, vasta dialéctica tribunícia. Possuem notória estatura ética, intenso currículo cultural, eminente craveira intelectual. Mas falta-lhes a mais pequena experiência de decisão política, a menor prática ministerial, a ínfima deliberação concreta, coordenação institucional, negociação diplomática. Sobre a execução de funções públicas não sabem literalmente nada. Pretendem, pois, começar a sua carreira justamente pelo lugar de topo, no cargo de Presidente da República. É uma atitude curiosa, arrojada, mas insólita.


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