Qhelena
sacadura
cabral
uando esta crónica sair será dia de Natal. A maioria das pessoas terá passado a noite de consoada com a família, numa simbólica celebração do nascimento de Jesus. Terá havido, como é norma, distribuição de brinquedos às crianças e ofertas aos adultos. Uns tê-lo-ão feito inspirados no presépio. Outros, no Pai Natal. O qual, por um inexplicável mistério, acabou por descer das terras geladas do Norte e se refugiar nos quentes braços dos lares latinos.
Embora a religião, a política e o futebol sejam temas fracturantes na sociedade portuguesa, não quis deixar de aproveitar esta crónica e este tempo para salientar algumas contradições dum Estado que se diz laico. Aquietem-se os que me lêem porque, apesar de católica, não pretendo evangelizá-los. Quero apenas usar o humor que ainda tenho para relembrar algumas incongruências duma "secularização à portuguesa". Uma delas, e talvez a mais importante no quadro de crise em que vivemos, refere-se ao vincado espírito consumista que, ao contrário do conceito original, vem caracterizando em demasia esta época. Sobretudo no que às crianças respeita, como se o objectivo dos "presentes" fosse acalmar a consciência de certos pais e até de alguns avós, que, no Natal, tentam compensar garotos e família por tudo o que durante o ano não fizeram ou não quiseram fazer. E não se argumente que a festa é dos pequenos, porque são justamente eles os mais lesados por este tipo de comportamento.
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