Aquestão dos crucifixos continua a animar as páginas dos jornais, e como alguma coisa ficou por dizer no meu texto da semana passada vale a pena regressar ao tema. Sobretudo por isto há detalhes de argumentação que convinha não serem esmagados pela velha luta entre a fé assolapada e o jacobinismo militante. Esse é um peditório para o qual me dispenso de contribuir, e por isso queria esclarecer dois pontos, que praticamente não foram tidos em conta pelos defensores da limpeza dos crucifixos, e que me parecem fundamentais.
O primeiro tem a ver com o carácter simbólico do crucifixo. Ateus e agnósticos têm a tendência de o remeter exclusivamente para o campo do religioso, argumentando a partir daí com a laicidade do Estado. Custará assim tanto admitir a existência de uma dimensão histórica nos crucifixos, que pode e deve ser valorizada? Como é evidente, se hoje em dia for construída uma escola em Queluz de Baixo, não faz qualquer sentido polvilhar as salas com Cristos pendurados. Mas em questões de laicidade dispensam-se os retroactivos retirar crucifixos de velhas escolas, onde não incomodam uma alminha há anos, é excesso de zelo e, politicamente, um absurdo.
O segundo ponto prende-se com a hipocrisia de um Estado laico aceitar feriados religiosos - tema que foi cuidadosamente evitado por quase todos os defensores da "descrucifixão", com a honrosa excepção de Vital Moreira. Este, no Público, afirmou que os feriados religiosos "não são mais do que dispensa de obrigações públicas para que os crentes possam cumprir as suas obrigações religiosas", e que, nesse sentido, "não implicam nenhum compromisso religioso do Estado". Vital Moreira que me desculpe, mas eu não percebo essa "dispensa" pode não ser um "compromisso", mas é evidentemente um privilégio da Igreja Católica. Porque não acabar com ele? Será que nos feriados religiosos os princípios laicos vão à missa?
João Miguel Tavares
jmtavares@dn.pt
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