por
pedro Mexia
pedromexia@gmail.com
A nossa cultura católica é um imenso equívoco. Os portugueses são católicos no baptizado, no casamento e no funeral. E depois existe um estrondoso fenómeno mariano. Esses são dados socialmente enraizados, mesmo se sujeitos a erosão. Mas não temos actualmente uma cultura católica digna desse nome, excepto a que vive guardada nos museus, nos textos clássicos, nas igrejas e monumentos. Não há um jornal católico decente, as editoras católicas difundem beatices, há poucos intelectuais e ainda menos artistas católicos, a ignorância sobre os fundamentos do cristianismo é galopante. Enquanto a Igreja portuguesa anda convencida da sua extrema importância, por causa do sucesso da pífia Rádio Renascença e de algumas vitórias pontuais, o nosso catolicismo está em vias de desaparecimento no campo da cultura.
Noutros países católicos europeus, como Itália ou Espanha, a cultura católica ainda tem alguma pujança, há imprensa católica, livrarias católicas, uma sensibilidade católica nas artes. Entre nós, são pouquíssimas as tentativas de contrariar a actual debilidade religiosa. Cito duas excepções recentes e louváveis, ambas laicas a colecção Religião Aberta (Gradiva), na qual saiu um texto de cristologia desapaixonada, Jesus, o Homem e o Filho de Deus, de Michel Quesnel, e uma sociologia das vivências religiosas, O Peregrino e o Convertido, de Danièle Hervieu-Léger. Ao lado destes ensaios mais académicos, surgiu também a colecção Teofanias (Relógio d'Água), dirigida por José Tolentino Mendonça. Cristina Campo e Simone Weil são dois dos nomes já traduzidos. É um gesto quase isolado mas significativo, na medida em que nos recorda que a cultura católica moderna inclui escritores de grande talento e diversidade, como Graham Greene, Claudel, Chesterton, C.S. Lewis, Hopkins, Péguy, Flannery O'Connor, Mario Luzi, Waugh, Böll, Bernanos ou Shusaku Endo.
Os responsáveis religiosos têm descurado essa dimensão. Mas com algum esforço e inteligência, é hoje possível divulgar uma cultura católica, mesmo nos seus paradoxos e heterodoxias, em vez de acharmos que o catolicismo é apenas o padre trancado na sacristia em Cucujães ou a magna questão da camisinha.
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