por
pedro Mexia
pedromexia@gmail.com
A imprensa noticiou que o inesperado vencedor do Booker deste ano, o extraordinário John Banville, só tinha vendido 3 mil exemplares do seu romance The Sea até ao anúncio do prémio. Agora, com certeza, os números vão subir pelo simples efeito da exposição mediática. Mas Banville não se livrou das melgas do costume, eternamente protestando contra os autores "minoritários" que são ignorados pelo "grande público" (esse rinoceronte excelentíssimo). Já tínhamos ouvido a mesma conversa quando o Goncourt de 2002 foi atribuído a Les Ombres Errantes, do hermético mas deslumbrante Pascal Quignard. Diziam as melgas que os prémios deviam premiar romances que as pessoas leiam e entendam, como se um prémio literário premiasse prateleiras de mercado e não o mérito artístico, independente do sucesso e de outras ninharias.
Estas melgas são uma espécie muito irritante no organismo literário. Ou melhor no mundo que alimenta a indústria de cascas de papel processado. A literatura, como qualquer arte, é independente do sucesso ou da popularidade. Não é proporcional nem inversamente proporcional: não tem nada a ver com isso. É normal que as editoras, as livrarias e os agentes do mercado se preocupem com o sucesso e com as vendas, porque vivem disso. Mas, no campo artístico, o sucesso e o insucesso não interessam absolutamente nada. Nenhum livro é bom ou mau por vender 3 mil exemplares, como nenhum livro é bom ou mau por vender 3 milhões ou apenas 3 exemplares. Os livros são objectos como os outros, mas a literatura não se confunde com enchidos e iogurtes. Há guias de férias ou manuais de andebol ou códigos civis, que são obras úteis e se destinam a um público concreto e desejavelmente numeroso. Há divertimentos e lixos e escandaleiras, que servem para os autores subirem na escala monetária e na feira das vaidades. Mas a literatura não tem nada a ver com isso.
Qualquer escritor gosta de ter o maior número de leitores possível; mas qualquer escritor que faz do sucesso o critério fundamental é apenas um salsicheiro. O escritor deve fidelidade ao seu mundo interior, às suas observações, obsessões, recordações, misturando a sua educação cultural com a sua vivência biográfica, a imaginação com o testemunho, o sublime com o trivial. E depois cada um tem ou encontra o seu género, o seu registo, o seu estilo. E só isso interessa, não as modas e os gostos do momento. Um livro que tenha 3 mil leitores (por oposição a 3 mil compradores) é um milagre. Alguns conseguem muito mais que isso. Ainda bem. Outros não conseguem quase nada. E não faz mal nenhum. A literatura às vezes alcança o sucesso. Mas não lhe compete procurar o sucesso.
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