por
s. F.
Álvaro Cunhal "dá nas personagens uma alta imagem de si, apresenta-se a si próprio de forma quase hagiográfica". Ou seja, é uma personalidade que se vê a si própria como um modelo. A afirmação de Pacheco Pereira sobre o líder histórico dos comunistas, feita ontem no lançamento do livro Uma Longa Viagem com Álvaro Cunhal, mereceu de imediato contestação. Cunhal foi "um homem excepcional, que estava muito perto de ser um modelo", mas que nunca se viu a si próprio como tal, defendeu o escritor Urbano Tavares Rodrigues, acrescentando que nada na obra do também ficcionista mostra "o propósito de se apresentar como um santo" Cunhal foi "um herói que não se assumia como tal".
A discussão partiu precisamente da obra literária de Cunhal e da natureza autobiográfica que esta assume, também o princípio seguido pelo livro ontem lançado pela ASA, da autoria de João Céu e Silva, jornalista do DN - em busca de Álvaro Cunhal na prosa de Manuel Tiago foi o ponto de partida da obra, complementado pelos testemunhos de quem conviveu de perto com o ex-secretário-geral do PCP.
Para Pacheco Pereira, biógrafo (não oficial) do líder comunista, não há dúvida de que a ficção assinada pelo pseudónimo de Cunhal "tem um forte pendor autobiográfico". "De alguma maneira, escreveu memórias através de textos ficcionais", afirmou o historiador, acrescentando que na ficção de Cunhal "está praticamente toda a sua vida", com excepção da parte lúdica e da sua experiência no estrangeiro. "Cunhal escreve muito sobre si próprio", diz Pacheco Pereira, e quase sempre dando aos personagens em que se retrata uma imagem positiva. Em sentido contrário à ideia corrente de que Cunhal não era uma figura personalista, Pacheco Pereira refere mesmo ter encontrado num dos desenhos de Cunhal o que julga ser um auto-retrato. Foi literalmente preciso procurar "à lupa", acrescentou . Para o ex-deputado, Cunhal tentou em vida "evitar que esta leitura fosse feita", mas como destacou a história do Portugal do século XX tem de ser reconstituída, "provavelmente não como aqueles que a viveram gostariam". Pacheco Pereira publicou já dois livros sobre a vida de Cunhal, e disse ontem ter já terminado o terceiro volume.
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