Nluciano
amaral
inguém duvida de que a próxima eleição presidencial não é uma eleição como as outras. Não se trata de mais uma eleição rotineira, de que resultará um pacato Presidente pronto a ajudar a gerir um país, um sistema político e uma economia em velocidade de cruzeiro. Bem pelo contrário, trata-se de uma eleição para saber quem estará aos comandos quando se der o contacto com o solo, numa altura em que os reactores parecem estar a falhar e o trem de aterragem ameaça não baixar. A escolha é entre ter um comandante que garante o despiste e o incêndio, e outro que evite o pior, mesmo que saltem bocados da fuselagem no meio da mais arriscada das operações. Por isto mesmo, importa ter uma noção precisa do que está em questão.
O próximo Presidente da República vai exercer o seu mandato em circunstâncias de falência sistémica, política e económica. Vale a pena lembrar que, entre 2000 e 2005, já se experimentou praticamente todo o repertório de soluções visando garantir governabilidade e prosperidade. Desde a maioria, não absoluta mas quase, de Guterres II, até à actual maioria absoluta do PS, passando pela maioria absoluta de coligação de Barroso-Portas, com uma breve experiência de governo parcialmente de iniciativa presidencial, com Santana-Portas. Em cada um destes momentos, quisemos acreditar estarmos perante respostas funcionais para enfrentar a crise. Até o prof. Cavaco demonstrou a certa altura bene- volência para com o Governo Só- crates. É como se ele quisesse acreditar, como os portugueses em geral, que esta reedição de esquerda do Cavaco de 1987 e 1991 seria capaz de voltar a pôr o regime nos carris.
Não é de crer que o prof. Cavaco ainda hoje conceda o mesmo benefício da dúvida. Muita gente pensa, de forma aliás fundada, que o prazo de validade do Governo está em vias de expirar. A solução mágica da maioria absoluta, que funcionou na segunda metade dos anos 80 e primeira dos anos 90, tem-se revelado insuficiente. Mais uns meses ou um ano de estagnação económica e mais um ou dois orçamentos incapazes de domesticar o défice e as condições políticas da maioria esgotar-se-ão, abrindo a porta para a próxima solução. Eis aqui o problema que o próximo Presidente vai ter de enfrentar. Que solução será essa? Uma nova maioria de direita? Uma fragmentação "à alemã", gerando uma ingovernabilidade virtual ou, pelo menos, uma paralisia reformista? Ou qualquer situação intermédia? Tudo é possível. Mas, aconteça o que acontecer, é à nova situação que se pedirá que concretize os passos políticos necessários à ultrapassagem da crise. Não há motivos para optimismo. Afinal, se nenhuma das soluções anteriores foi capaz de o fazer, porquê esta? É aqui que, com os poucos meios à sua disposição, entra o Presidente.
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