por
fernanda câncio
Eum rosto tranquilo. É possível que se treine isto, esta espécie de silêncio quente, acolhedor, a suscitar confissões e desabafos, esta expressão que diz "quero ver-te claramente e não te julgarei", esta empatia instantânea. É possível que se ligue e desligue, é possível até que seja a fingir, que atrás deste olhar se pense no almoço de ontem ou na lista de compras desta tarde. Mas impressiona.
Fernando Sampaio, 48 anos, coordenador diocesano dos capelães hospitalares da área de Lisboa, impressiona. Está há 10 anos no Hospital de Santa Maria, antes esteve nove no Instituto Português de Oncologia. Quase duas décadas a percorrer corredores de hospital, a respirar este odor peculiar em que desinfectante e doença se confundem, a atravessar para a frente e para trás a fronteira da vida e da morte. "Não é fácil, sabe?" No olhar claro, azulado, há um quase imperceptível repto. "É muito desgastante. Temos de escutar as pessoas em momentos terríveis de sofrimento. O capelão quando faz aquilo que tem a fazer e o faz bem feito tem de ter ouvidos para escutar e palavras para dizer. Às vezes até temos uma resposta pessoal, mas não temos de a dar - temos de ajudar as pessoas a fazer a sua própria caminhada."
Mesmo se a caminhada pressupõe, naturalmente, uma direcção pré-determinada. É de assistência religiosa, neste caso católica, que se trata - e é isso que é suposto as pessoas quererem quando falam com um padre. Para as outras necessidades existem, ou deviam existir, os ministros das outras religiões e os psicólogos - mesmo se há também, diz, "pessoas que não querem nada da Igreja Católica e aproveitam a nossa presença para conversar e ter apoio psicológico e emocional".
Como se faz então a destrinça, sobretudo se, como Fernando Sampaio frisa, "não se pode perguntar a religião aos doentes", não sendo estes questionados, no inquérito de internamento, sobre se desejam assistência religiosa? "Há pedidos directos, aqui para o gravador de chamadas da capelania, há pessoas que pedem ao pessoal hospitalar, familiares que nos procuram... E há as nossas rondas pelo hospital, em que falamos com todos os doentes."
orações na enfermaria. Vestidos de bata branca, os três capelães do hospital, dois padres e um diácono, confundem-se com o pessoal médico. Janik Jan, um missionário polaco há 11 anos em Portugal, seis dos quais neste hospital, desenhou na bata onde num dos bolsos transporta o relicário dos santos óleos, sempre à mão para a santa unção ("Este ano já fizemos 678", certifica com orgulho, livro de assentos na mão), uma cruz e o seu nome, na versão portuguesa - João - a esferográfica azul. Acabou de fazer a sua volta pelas enfermarias, iniciada após a celebração da missa das sete da manhã na capela do hospital. "As pessoas recebem-me muito bem. Às vezes ficam um pouco com medo ao ver um padre, dizem 'não quero ainda morrer'." Sorri. A associação entre um ministro católico e a morte parece enternecê-lo. É com o mesmo bom humor que comenta a forma como as pessoas vêem a santa unção, fazendo o gesto de quem carimba "Acham que é o passaporte para o outro lado." Mas a bonomia não lhe impede o rigor. "Há muita superstição. Sinto que é preciso haver uma nova evangelização aqui. Na Europa toda, aliás. É preciso usar linguagem de hoje para falar de religião."
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