por
fernanda câncio
A hepatite C mata cerca de mil portugueses por ano. A sida mata menos de metade. A estimativa de incidência da infecção pelo HCV, o vírus da hepatite C, em Portugal é pelo menos de 1,5%, correspondente a 150 mil infectados; a estimativa paralela para o HIV não ultrapassa os 60 mil portadores. Mas se nas duas últimas décadas o combate ao HIV/sida determinou a existência de uma estrutura, a Comissão Nacional de Luta Contra a Sida, específica para o efeito, com uma dotação orçamental própria, para a hepatite C nada foi previsto.
Uma situação que pode mudar com a nomeação do novo responsável pela área do HIV, o epidemiologista Henrique Barros, que disse ao DN considerar que "a luta contra o HIV é coincidente com a luta contra a hepatite C".
Este professor da Faculdade de Medicina do Porto, que brevemente deverá ser empossado pelo ministro da Saúde como coordenador nacional da luta contra a infecção HIV/sida, frisa que as infecções por HIV e HCV (vírus da hepatite C), comungam das mesmas vias de transmissão - sobretudo a sanguínea e a vertical, de mãe para filho - e que "do ponto de vista de saúde pública, a prevenção tem de ser coerente e isso significa que as coisas que se podem prevenir pelas mesmas vias devem ser apresentadas em conjunto". E dá o exemplo do kit de troca de seringas para consumidores de drogas por via endovenosa que, se for eficaz, permite evitar tanto a infecção por HIV como por hepatite C "Infelizmente neste momento, os kits que estão a ser disponibilizados não previnem nem uma nem outra, têm deficiências técnicas."
Esta posição do novo responsável pela área do HIV/sida parece vir ao encontro dos anseios da associação SOS Hepatites, que hoje entrega na Assembleia da República uma petição solicitando uma série de medidas de combate àquelas infecções e tem vindo desde a sua formação, no final de 2004, a reclamar uma maior atenção para o combate às hepatites virais, nomeadamente através da rentabilização, nesse sentido, de recursos dirigidos para luta contra o HIV. Como exemplo, a associação solicitou ao ministro da Saúde que incluísse análise para o HCV no inquérito serológico nacional para o HIV/sida, que estava a ser preparado no âmbito da agora extinta Comissão Nacional de Luta Contra a Sida.
Uma ideia à qual Henrique Barros dá o seu acordo. "Sou a favor de um estudo de prevalência que inclua o HIV e as hepatites (C e B)". E considera até que esse estudo "já se poderia ter feito em Portugal, e não precisava de ser feito no país todo nem custar muito dinheiro." Outra das reivindicações da SOS Hepatites, a de testes de rastreio anónimos e gratuitos para as hepatites B e C - testes esses que poderiam ser disponibilizados através da estrutura nacional dos Centros de Detecção e Aconselhamento do HIV - merece de Henrique Barros um acolhimento mais prudente, que funda no facto de não poder ainda pronunciar-se sobre questões que relevam de decisões políticas "É sempre bom rentabilizar recursos."
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