por
Francisco
sarsfield cabral
Sócrates tem desbaratado boa parte do seu capital político com a obsessão de colocar amigos e aliados em todos os buracos que aparecem no Estado e arredores. Em contrapartida, o primeiro-ministro resiste às contestações dos grupos afectados pelas medidas restritivas que tomou militares, forças de segurança, magistrados, professores, funcionários públicos em geral. Muitos previam um considerável desgaste do Governo em resultado desta onda de protestos, manifestações e greves. Ora verifica-se o contrário: a determinação de não ceder às corporações em revolta é o principal trunfo do Governo. As "medidas impopulares" afinal são populares. Porquê?
Primeiro porque os contestatários mostram inabilidade ao não perceberem que a opinião pública não apoia as suas lutas. Não aceita que alguns desses grupos - órgãos de soberania, gente com armas, etc. - actuem como vulgares sindicalistas. E indigna-se com "privilégios" pouco transparentes ou injustificados. Um exemplo pela coluna de António Marinho no Expresso de 17 ficou a saber-se que o subsídio de renda dos magistrados está isento de IRS, por acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, isto é, por decisão de magistrados…
Depois, as pessoas gostam de firmeza e coragem na governação. Sócrates ganhou com a determinação da sua luta pela co-incineração. Marcou, assim, uma diferença face à moleza do então primeiro-ministro socialista, Guterres. Esta faceta voluntariosa de Sócrates (que levou alguns comentadores a evocar a atitude de Cavaco Silva) permite-lhe contrariar a impressão de serem Jorge Coelho e o aparelho do PS quem manda. E refreia a oposição do PSD e CDS, que não podem combater o essencial das "medidas impopulares" sem caírem na óbvia irresponsabilidade. As contestações corporativas são uma bênção para o Governo.
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