por
pedro Mexia
pedromexia@gmail.com
Donnie Darko (nova versão), Garden State, Million Dollar Baby, Sideways e Sin City estrearam nos cinemas neste ano. E num instantinho estão disponíveis em DVD. O tempo que medeia entre a sala e o disco é cada vez mais curto. Como cinéfilo, tenho alguma pena que isso signifique uma desistência da ida às salas. Mas é positivo que possamos rever os filmes de que gostámos e os tenhamos na estante sempre disponíveis. No entanto, creio que alguma coisa se perdeu. Algum tempo de sedimentação. Alguma carga nostálgica.
Durante décadas, os filmes ficavam na memória até nova oportunidade, muitas vezes só anos e anos depois. Não são poucos os filmes que ganharam uma dimensão especial na memória que não correspondia ao seu conteúdo ou ao seu mérito efectivos. Assim, as pessoas diziam que até tinham medo de rever os filmes, porque talvez eles não fossem exactamente aquilo que lembravam. O cinema funcionava também como exercício de memória, com muitas lacunas e falsas lembranças.
Havia os chamados cinemas de reprise, depois as cinematecas e cineclubes, depois a televisão e o vídeo, mas não desapareceu esse enorme continente escuro de filmes a que se tinha perdido o rasto e que viviam apenas na cabeça de cada pessoa, como os livros memorizados em Fahrenheit 451. Agora, quase todos os filmes estão disponíveis a todo o momento. Isso não é mau. Mas, convenhamos, destrói alguma mitologia do cinema (do cinema como memória), da mesma maneira que a passagem do grande para o pequeno ecrã destrói alguma coisa também essencial.
O DVD é o mais extraordinário museu de cinema e escola de cinema ao domicílio. Saltamos cenas, vemos os extras, temos informação infinda. Mas o DVD marca mais um momento melancólico na história do cinema, algo semelhante à passagem do mudo ao sonoro. Ninguém pretende recusar os avanços técnicos nem o admirável mundo novo (mesmo estético) que a técnica permite. Mas há alterações específicas (como o digital) que, sendo benéficas, são sempre também um pouco tristes.
A memória do cinema é hoje materialmente mais acessível. Mas é cada vez menos uma memória esfumada e poética, como estávamos habituados.
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