Governo e oposição emocionaram-se com a possibilidade de haver alguma relação entre a proliferação de incêndios e a quantidade das respectivas imagens televisivas. Dando provas daquele que parece ser o seu único conceito mediático (o voluntarismo figurativo), a classe política uniu-se, assim, num gesto profilático tratava-se de saber de que modo o pequeno ecrã poderia "influenciar" os que ateiam fogos. Obviamente, os aparelhos televisivos responderam, e corresponderam, em coro: a sua autoproclamada vocação de intermediários reforça-se sempre que é possível introduzir alguma relação (televisiva) de "causa" e "efeito".
Claro que toda esta agitação produziu, ou melhor, reproduziu um festivo vazio de ideias. Por uma razão muito simples o seu tradicional desvio para uma dimensão moralista permite iludir todas as questões (práticas e teóricas, políticas e simbólicas) que envolvem a responsabilidade social da televisão.
Dito de outro modo sendo evidente que os jornalistas são honestos e a informação televisiva procura o bem comum, os eventuais incidentes de percurso não maculam o simples facto de a televisão trabalhar, arduamente, para nos dar a conhecer a realidade "como ela é".
Abençoada ilusão! Por cândido simplismo ou agressivo cinismo, a televisão (ou, pelo menos, as suas matrizes dominantes) vive desesperadamente enraizada nesse realismo infantil, ou melhor, num infantilismo que se quer realista. É um princípio de militante cegueira cognitiva ignorando que qualquer imagem (e qualquer som) envolve uma escolha e, na sua relação com as outras imagens (e sons), produz um efeito narrativo, a televisão acredita, ou quer acreditar, que onde chega uma câmara chega também um testemunho neutro, porventura divino, da realidade. Mais do que isso: que a realidade é algo que se oferece, transparente, ao simples gesto de accionar um botão.
O que este modo (dominante, insisto) de fazer televisão não tolera é a simples ideia de que o seu labor de apreensão daquilo a que chamamos "realidade" configura uma linguagem. E ainda que não há conhecimento fora da linguagem. Porque, como dizia um cineasta (Godard) muito interessado pelas potencialidades da televisão, "os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem".
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