por
pedro correia
Cabelo desgrenhado, em mangas de camisa, o primeiro-ministro gesticulava abundantemente para sublinhar melhor as suas tiradas oratórias no comício. Levava um discurso escrito, mas o entusiasmo da ocasião levou-o a fugir da pauta, recorrendo ao improviso. Às tantas, saiu-lhe uma frase contra os jornais que mais o criticavam. Uma frase difundida pela televisão, que transmitia em directo o comício.
"A linguagem insultuosa (...), o recurso irresponsável ao boato e mesmo à mentira mostram à evidência que a libertinagem impera em certa imprensa. (...) Não tenho medo nenhum de acusar esses pasquins Jornal Novo, Expresso e Tempo", declarou o primeiro-ministro. Chamava-se Vasco Gonçalves e falava no célebre discurso de Almada, no auge do Verão Quente de 1975.
A acusação de "pasquim", vinda do mais controverso chefe do Governo português dos últimos 30 anos de História, funcionou como um rasgado elogio a qualquer dos jornais. Numa época em que a esmagadora maioria dos periódicos estava em clara sintonia com o poder político-militar, os títulos "desalinhados" serviam de contrapoder numa sociedade ameaçada pela sombra de uma nova ditadura.
Nesse tempo, a quase totalidade dos jornais pertencia aos bancos. Com a nacionalização da banca, a 13 de Março de 1975, esses títulos ficaram sob a tutela estatal. Designadamente O Século, Diário de Notícias, Jornal de Notícias (entre os matutinos), Diário Popular e A Capital (entre os vespertinos). Todos adoptaram linhas editoriais semelhantes, em claro apoio à ala gonçalvista da revolução, protagonizada pelo primeiro-ministro.
O assalto a órgãos desafectos ao Governo por forças comunistas ou de extrema-esquerda, como o vespertino República e a Rádio Renascença, na Primavera de 1975, acentuou a suspeita - expressa em muitos jornais além-fronteiras - de que a liberdade de imprensa tinha os dias contados em Portugal.
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