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artes

Rock'n'roll

por

nuno galopim  

"Dissemos ao Presidente Sampaio, e pedimos-lhe que passasse a mensagem ao primeirio ministro Sócrates, que queremos que Portugal lidere, e não apenas siga, a luta contra a extrema pobreza em África", revelou Bono em jeito de comício rock'n'roll perante as 52 mil almas rendidas que seguiam com atenção e devoção a recta final do soberbo concerto dos U2 na noite de domingo. Perante um Alvalade XXI cheio ao limite do espaço disponível, o cantor-activista sublinhava ainda que acreditava "que este Governo fará o que tiver de ser se lhes disserem para o fazer". E, mesmo perante os apupos que pontualmente se manifestaram ao mencionar do nome do primeiro- -ministro, Bono levou a sua mensagem a bom termo, conquistando a confiança e desejo de militância dos fiéis na plateia. "Juntos conseguiremos, se agirmos como apenas um", concluiu, dando passagem a One, tema clássico do indispensável Achtung Baby que encerrou o alinhamento do set principal.

Foi neste inteligente jogo de propostas entre a exposição de canções e as frequentes manifestações de discurso político e social que se viveu a noite de encerramento da etapa europeia da Vertigo Tour. Tudo isto moldado num espectáculo que, mesmo visualmente menos esmagador que as anteriores digressões Zooropa e Pop Mart (que nos visitaram, respectivamente em 1993 e 1997), não deixou de ser projecção do reconhecido profissionalismo performativo dos U2, num espaço que de facto privilegiou a música mas em nada deixou secundarizar a gestão da imagem. E que imagem, num palco onde tanto se reflectiam jogos de luz como se projectavam imagens vídeo, com duas plataformas lançadas plateia dentro, que asseguraram livre deslocação dos quatro elementos da banda no grande espaço disponível, quebrando, tanto quanto possível, a distância entre quem via e quem era visto.

Um pouco mais tarde que o previsto, quase ao bater das dez da noite, os U2 chegaram ao palco logo aplaudidos em glória pela multidão que os vira a sair dos camarins e subir à gigantesca estrutura dominada por duas torres pinceladas a riscas vermelhas e negras (como na capa do último álbum), entre as quais se estendia um gigantesco painel aparentemente transparente que mais tarde seria o centro de toda a acção de luz e vídeo. O sistema de som, que desde o final do concerto dos Kaiser Chiefs nos tinha dado bela selecção pop/rock de bom gosto, entre temas de uns Radiohead, Beck, Bowie, The Cure, The Killers, Clash ou Gorillaz, fazia soar o muito esperado Wake Up dos fabulosos canadianos Arcade Fire, o tema tradicionalmente escolhido nesta digressão como mote para entrada em cena dos quatro irlandeses.

"1, 2, 3... 14", em perfeito português. Era o início do concerto ao som do pujante Vertigo. Coro popular em alta, marcando um concerto com constante participação da multidão, ora gritando refrões a pulmão cheio, esbracejando ao ritmo das canções, não evitando de quando em vez as tradicionais "palminhas" (que, em Miss Sarajevo, Bono obrigou a calar).

A Vertigo seguiu-se um alinhamento em tudo idêntico aos dos concertos mais recentes, revisitando belos clássicos como I Will Follow, The Electric Co. (com Bono e The Edge a experimentar pela primeira vez as passadeiras), Elevation (sob coro futebolístico e com primeiras manifestações de jogos de controlo de multidões pelo vocalista, que brindava as masas chamando-lhes "sexy people"), New Year's Day ou Beautiful Day, este com algumas notas extra de Here Comes The Sun dos Beatles.


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