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artes

Harry Potter, o fenómeno

por

pedro Mexia

pedromexia@hotmail.com  

Harry Potter? Não faço ideia. Nunca li, nem tenciono, nenhum volume da saga. E não me entusiasmo nem me incomodo com o adolescente da senhora Rowling. Harry Potter é para adeptos de magias e bruxarias. Não é o meu caso. Mas há aspectos neste caso que me interessam.

O primeiro é o sucesso. A maioria dos sucessos comerciais em matéria de romance são coisas indigestas e indigentes, xaropes infectos com sexo e escândalos ou espionagens recauchutadas ou manuais de bons sentimentos ou espiritualidades de intrujões. É por isso fascinante ver esta euforia causada por uma simples saga fantástica que, mais ou menos interessante, pelo menos não é lixo. Vermos livrarias quase pilhadas por multidões de putos e graúdos, que sorriem de excitação e lêem as primeiras páginas a caminho da caixa registadora, é animador, tão habituados estamos ao desprezo pelos livros.

Depois, embora conheça opiniões muito negativas (Harold Bloom), tenho encontrado diversas apreciações positivas ou equilibradas aos calhamaços de Rowling. Michiko Kakutani escreveu no New York Times de sábado passado "Para além de serem romances de aprendizagem, claro, os livros Harry Potter são também histórias policiais, narrativas de desafio, fábulas morais, contos de camarata, galopadas de acção e aventura, e J.K. Rowling usa os seus incansáveis poderes de invenção para unir estes géneros, ao mesmo tempo que recorre a uma miríade de referências e tropos (tirados de fontes como Shakespeare, Dickens, contos de fadas, mitos gregos e obras mais recentes como Guerra das Estrelas) e os faz seus". E continua "Na verdade, o mérito de Harry Potter é o mesmo que os grandes clássicos da literatura para crianças, de O Feiticeiro de Oz a O Senhor dos Anéis a criação de um universo rico na imaginação e totalmente singular, tão detalhado, improvável e mortal como o nosso."

Estes são ingredientes indispensáveis numa literatura infantil que não cuide apenas do entretenimento mas pretenda algum efeito formativo (não de doutrinação mas de imaginação). Antes isso, mil vezes, que jogos de computador cujo objectivo é abater velhinhas com uma Uzi.


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