por
elisabete frança
"Reencontrar uma voz, decifrar o seu querer, reanimar a sua entoação" foi o método do poeta, tradutor e ensaísta Yves Bonnefoy (Tours, 1923) em Rimbaud, aqui numa colecção Biografias, embora o autor lhe chame "retrato" e, em rigor, seja um ensaio. Estudo denso (1961, Le Seuil), edição revista e aumentada em 1994 esta que Filipe Jarro traduzia nos 150 anos do nascimento de Jean Nicolas Arthur Rimbaud (Charleville, 1854 - Marselha, 1891), poeta fulgurante, transgressor, renovador da poesia a vir, não obstante a brevidade do incêndio.
A partir duma atenta escuta da voz singular e dos silêncios do jovem encerrado na sua inquietação de alcance universal, Bonnefoy faz-lhe dialogar obra e vida, cada uma a revelar a outra. "Para entender Rimbaud leia-se Rimbaud" é a sua divisa, neste registo minucioso de cintilações e negrumes, a concluir, nomeadamente, que, ao criador duma "poesia para mudar a vida, iniciática", interessava mais a "salvação" do que a escrita, empenhado como estava em "libertar-se da sua detestada condição para se tornar realmente roubador de fogo". A missão prometaica, perseguida até à desistência talvez por exaustão, foi auto-imposta em tumulto de contradições do desregramento à caridade, "esboçando o acto verdadeiramente moderno que é querer fundar uma vida divina sem Deus".
O foco incide no arco temporal 1870-74, percorrido pela obra fugaz. Incursão retrospectiva, só a indispensável para contextualizar; prospecção nenhuma, com fundamento ético "Logo em 1875, o ser consciente de Rimbaud renunciou a mudar a vida. (...) quem renuncia a mudar a vida encerra-se num destino e tem o direito de ver respeitado o carácter privado deste. Considero indecente essa obstinação em querer seguir o rasto daquele que regressou à existência anónima. Que não se leiam as cartas do Rimbaud africano à família; não se tente saber se aquele que quis um dia roubar o fogo vendeu isto ou aquilo."
No círculo familiar, são destacados traumas da ausência paterna e da falta de amor duma mãe frustrada pela falta do marido, ríspida, fazendo o filho sentir horror de si, determinando a trajectória em que, "antes de poder reinventar o ser", ele tentará "reinventar o amor", daí decorrendo a vivência da ligação a Verlaine em lugar central "A sua poesia é revolta desde o início, e amor desiludido, assim como desejo de um amor novo." Isso até o "devaneio" cessar "Há, por fim, quando se tem fome e sede, alguém que nos arreda" (Infância/Illuminations, últimos poemas em prosa, a maioria de dúvida e de fracasso).
Alargando o círculo, é sublinhada "a solidão e a presença da terra, a presença dos elementos e o seu curso taciturno", "uma vida social imóvel e sem escapatória", a que Rimbaud tenta escapar ("Que horror, esta província francesa!") em fugas sucessivas, desde os 16 anos, sobretudo até Paris. "Não se é sério, quando se tem dezassete anos", mas escreveu-o quem formulava conceitos lapidares (do aludido "desregramento de todos os sentidos" - de que a homossexualidade seria componente - como via para "o desconhecido", até à célebre síntese do eu estilhaçado, "Je est un autre"), nas cartas ditas du Voyant, ao poeta Demeny e a Izambard, seu professor, iniciador na poesia moderna e na filosofia, incentivando a escrita do rapaz, cujo primeiro poema datava dos 15 anos e que, aos 17, voltava a descer até à capital, com Le Bateau ivre no bolso, ao encontro de Verlaine.
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