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artes

Revista à portuguesa

por

pedro Mexia

pedromexia@hotmail.com  

Desde a adolescência, tenho estado quase todos os anos em reuniões e conspirações com vista à criação de uma nova revista. Revistas com um grau variável de âmbito e ambição, mas sempre, evidentemente, mostruários da inteligência oculta, ataques à mediocridade reinante, valentes manifestos geracionais, modos decididos de sairmos da nossa província mental.

Estas reuniões partem sempre de princípios que entroncam numa tradição de queixume e utopia muito Geração de 70. Primeira ideia isto é uma choldra. Segunda ideia: precisamos de estar abertos ao mundo e de trazermos o esplendor alheio para o Rossio. Terceira ideia: a malta das artes e das letras e da política é uma cambada de mentecaptos. Quarta ideia: a nossa geração e os nossos amigos concentram um grau mundialmente inusitado de novidade e génio. Quinta ideia: queremos fazer estardalhaço. Sexta ideia: depois logo se vê.

E assim vamos esboçando a nossa Spectator da Graça, a nossa Prospect de Oeiras, a nossa New Yorker do Saldanha, a nossa Les Inrockuptibles das Olaias. Não espanto ninguém se dizer que dessas vinte revistas nenhuma avançou. Houve planos. Números zero. Textos escritos. Grafismo de truz. Editoriais com verve. Planos para salvar Veneza. Só não houve revista.

Somos uns líricos. E uns tristes. Essas reuniões anuais dos crânios locais redundam geralmente em discussões bizantinas, copos, muitos números de telefone de mão em mão, escrita automática e algum sono. No entanto, a ideia persiste e insiste. Este ano já estive numa dessas inevitáveis reuniões. Bebemos uns gin tónicos catitas.

O poeta americano e.e. cummings satirizou tais devaneios revisteiros em "let's start a magazine" (de No Thanks, 1935), que aqui deixo numa versão muito livre ""vamos fundar uma revista // a literatura que se lixe / queremos algo com sangue na guelra // péssima com uma pura / apelativa com uma escura / obscena e destemida // mas realmente decente / percebem / não vamos estragar isto / vamos fazer isto a sério // uma coisa autêntica e delirante / estão a ver uma coisa genuína como um gatafunho / numa retrete // com graça e raça e alguma / chalaça" / fechem a boca e abram os olhos".


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