por
pedro Mexia
pedromexia@hotmail.com
Li pela primeira vez A Balada da Vida e da Morte do Alferes Christoph Rilke, de Rainer Maria Rilke (numa tradução de Paulo Quintela), em plena adolescência. E senti o que sentiram milhares de alemães (e milhares de soldados alemães) há quase cem anos que este texto é uma exaltante homenagem às aventuras de cavalaria, um elogio ao amor funesto e às amizades viris, uma nostalgia pela ética aristocrática, um monumento à morte em combate.
Reli agora A Balada na tradução de Maria João Costa Pereira (Relógio d'Água). Mas não encontrei o mesmo texto. Não se trata de nenhum demérito da tradutora eu é que, quinze anos depois, não tenho o mesmo entusiasmo por cartas no gibão, pétalas de rosa e bandeiras apertadas contra o peito. Mas ainda percebo a razão desse entusiasmo.
A Balada é uma prosa poética de pendor narrativo e tom elevado, sobre um suposto antepassado de Rilke que supostamente morreu em 1664 em combate contra os turcos. É um escrito de juventude (a primeira versão é de 1899, tinha Rilke 24 anos). E é de certo modo um escrito para a juventude, para uma idade sem suspeita nem cinismo, capaz de cavalgar neste romantismo triste como o alferes cavalga, noite dentro, numa cena que sempre rimou na minha cabeça com as cavalgadas siberianas de Miguel Strogoff.
É normal que o meu fascínio pelo texto se tenha esvaído. Um adolescente ou um jovem entende melhor este espanto com o amanhecer e o anoitecer, esta vontade de extinção, esta paixão ofegante e esperançosa mesmo no desespero. Mas ainda não sou insensível a passagens como esta "(...) eles iluminam a face um do outro com sorrisos. Tacteiam ante si como cegos, e encontram-se um ao outro como se encontra uma porta. Quase como crianças, que têm medo do escuro, estreitam-se um ao outro. E porém não têm medo. Nada há que esteja contra eles: nem ontem, nem amanhã, pois o tempo ruiu. E eles florescem dos seus escombros. / Ele não pergunta: "O teu marido?" / Ela não pergunta: "O teu nome?" / Pois eles encontraram-se, para serem um para o outro uma nova geração. / Hão-de dar-se novos nomes e hão-de tirá-los de novo, devagar, como se tira um brinco de uma orelha".
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