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A memória futura de um arrastão

 

Já tínhamos aprendido isto com a Casa Pia, ou mesmo antes. Notícias que em cima da hora parecem extraordinárias, mas não resistem ao juízo do tempo. Notícias onde as expectativas ultrapassam os factos e que depois adormecem num rodapé esquecido de página de jornal. Assim aconteceu com o arrastão de Carcavelos, que mobilizou o país semanas a fio, antes de cair no esquecimento. Agora, tornou-se discretamente nítido que não houve arrastão. Faz sentido não esquecer, agora, as tensões que este caso trouxe à superfície. E perguntar onde fica, afinal de contas, a credibilidade dos media.

No essencial, este caso tem duas vertentes. Uma diz respeito à fonte das notícias, outra aos jornalistas. Na matéria que este jornal publica hoje, fica nítido que a polícia assume ter errado ao falar em 500 marginais. Estou de acordo com Diana Andringa é muito importante que a PSP tenha assumido o erro. Isso merece ser realçado. Em Portugal, não temos o culto do erro. Os erros são aborrecidos e as conspirações excitantes. Mas as sociedades que evoluem são as que sabem corrigir os erros e as que não evoluem são os que não os sabem sequer assumir. Num certo sentido, é como se a informação da PSP se tivesse sintonizado com o discurso mediático que amplifica a realidade e alimentado as expectativas deste, aceitando a ideia do "arrastão" que depois rejeitou. A polícia não tem que satisfazer a ansiedade de um jornalista que quer saber se houve ou não arrastão. Porque o arrastão é uma palavra e não uma realidade. As fontes são parte do processo de produção da informação. Quanto mais amadurecerem, melhor ficará a democracia.

E os media? Foram apenas arrastados? Não, porque noticiaram os assaltos com uma intensidade diferente da intensidade com que noticiaram os números corrigidos da polícia. Ou na precipitação com que usaram a imagem obtida por um amador, interpretando-a como representando uma agressão. Na verdade, trata-se de uma fuga. Os media, sobretudo os que actuam em tempo real, estavam legitimados por uma fonte oficial e o que essa fonte dizia era notícia. Mas faltou, em muitos casos, a capacidade crítica de verificar a história, em vez de construir uma narrativa a partir dos elementos considerados válidos. Aceitou-se que eram 500, a partir daí aceitou-se que era um arrastão e a partir daí afirmou-se que somos um país de terceiro mundo com emigrantes perigosos. Uma cadeia diabólica de intepretações que substituiu e dispensou a veracidade dos acontecimentos. A força de uma palavra tornou-se mais importante do que a realidade. Um erro que fica para memória futura. Terá emenda?

Miguel Gaspar

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