por
MIGUEL GASPAR
O arrastão nunca existiu? Um mês após os acontecimentos de 10 de Junho, na praia de Carcavelos, os actores que intervieram na mediatização da mensagem estão de acordo. Como explicar, então, que o País tenha estado em choque durante vários dias? Como se construiu a ilusão?
O caso regressou à actualidade através de uma entrevista do comandante da PSP de Lisboa a Diana Andringa, divulgada no sábado pelo Expresso. O comandante Oliveira Pereira afirmava que a polícia fora "pressionada" para falar num arrastão e assumia que a PSP errou ao falar em 400 a 500 pessoas, num primeiro comunicado emitido a 10. Mas adiantou ter corrigido o teor desse comunicado no mesmo dia, na TVI, e três dias mais tarde, no Jornal da Noite (SIC). Contactado ontem pelo DN, o mesmo responsável não quis falar, dado o impacto da publicação das suas declarações anteriores no semanário e na página da Internet do Bloco de Esquerda, através de um link.
A primeira notícia, da agência Lusa, chegou às redacções às 16.10. Incluía declarações atribuídas ao comandante Gonçalves Pereira, da PSP de Cascais, de acordo com o qual "500 adultos e jovens constituídos em gangs entraram hoje às 15.00 na praia de Carcavelos (...) e começaram a assaltar e a agredir os banhistas". A Lusa soube dos acontecimentos através de um jornalista, acidentalmente no local, que constatou o movimento anormal de ambulâncias e polícias.
A referência a "centenas de jovens" foi decisiva para a mobilização dos media. Um comunicado da PSP, enviado às 21.00, fala em arrastão. A polícia considera que esses comunicados foram um erro, segundo disse fonte policial ao DN. "A polícia não está presente quando o crime acontece", acrescentou a mesma fonte. A PSP contactou vários especialistas, nomeadamente dois jornalistas. Mas afirma não ter sido a primeira a falar em arrastão. Um termo que a Agência Lusa não usou nesse dia, mas apenas "quando a expressão entrou na gíria", disse fonte da agência a este jornal. Afinal, onde nasceu a palavra arrastão?
O termo entrou no discurso mediático apoiado nas fotografias obtidas pelo dono de um restaurante da praia. António Capucho, presidente da Câmara de Cascais, critica "o que as televisões fizeram naquele dia". E nega ter alguma vez falado em "centenas de marginais", uma expressão que lhe foi atribuída, no próprio dia, pela Lusa. "Conheço esta situação há anos", disse o autarca, para quem a ausência, este ano, do Corpo de Intervenção da PSP nas praias da Linha é a causa do problema.
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