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Clima ameaça anfíbios

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paula ferreira  

Salamandras, tritões, sapos e rãs. A diminuição do número de exemplares destas espécies pode ser uma das primeiras consequências do aquecimento do planeta na biodiversidade do Noroeste da Península Ibérica. Essa é a convicção de Miguel Araújo, investigador na área do clima da Universidade de Évora. A par da diminuição da fauna, as previsões apontam também para uma redução acentuada da flora em Portugal e Espanha.

O diagnóstico leva o investigador a defender outro tipo de atitude face às alterações climáticas. "Para além das medidas de mitigação, assentes na redução de emissão de gases com efeito de estufa", Miguel Araújo considera que as transformações em curso "exigem uma reformulação do conceito de áreas protegidas e da observação sobre até que ponto cumprem essa função".

Mais do que áreas protegidas, Miguel Araújo gostaria de ver criadas áreas-refúgio, locais, normalmente situados em vales encaixados. "Por vezes, entre a vertente Norte e a vertente Sul, a temperatura pode variar 10 graus". Esta diferença térmica é aproveitada pelas espécies para se adaptarem, "desde que não haja entraves físicos", alerta o investigador e dá um exemplo "Num rio com barragens não há vales encaixados." Como área-refúgio ainda que sem esse estatuto, Miguel Araújo aponta "o vale do Sabor onde se encontram espécies que não existem em mais lado nenhum". Sobre aquele santuário natural pende a ameaça de construção de uma barragem.

Aridez. Inserido no programa europeu ATEAM ( Análise e Modelação Avançada de Ecosistemas Terrestres), o trabalho de que Miguel Araújo faz parte, ao lado de investigadores franceses, britânicos e suecos, destaca a vulnerabilidade dos répteis e anfíbios na Península Ibérica, mas também na área central de França. Um cenário que contrasta com as projecções para o Norte e Sudeste da Europa, onde "os modelos indicam uma possível expansão de distribuição para Norte sem, no entanto, se verificarem perdas assinaláveis nas distribuições a Sul". Miguel Araújo explica esta tendência "com o aumento da aridez prevista para a Península". Se se confirmar, o aumento da erosão dos solos, poderemos "atingir condições semelhantes às que existem em algumas zonas do Norte de África, onde persistem poucas espécies de anfíbios".

Apesar do grau elevado de "incertezas destas projecções", o investigador não tem dúvidas de que "os répteis estarão em condições bastante mais favoráveis que os anfíbios para adaptar-se às alterações climáticas". Em causa está a sobrevivência dos primeiros "completamente dependentes da água para, por exemplo, completar o seu ciclo reprodutor".


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